ENFERMAGEM E SERVIÇO SOCIAL EM PERSPECTIVA TRANSDISCIPLINAR: SUPERANDO FRONTEIRAS, CONSTRUINDO PONTES E TECENDO POSSIBILIDADES
Resumo
Introdução: A transdisciplinaridade entre Enfermagem e Serviço Social apresenta-se como campo fértil para reflexão científica e construção de práticas integradas voltadas ao fortalecimento das políticas públicas de saúde e assistência social no Brasil. Diversos estudos indicam que a integração entre saberes disciplinares distintos, mas complementares, é essencial para superar fragmentações e atender integralmente às demandas populacionais, enfatizando determinantes sociais e equidade (Mattos, 2004). Essa perspectiva ganha corpo quando articulada com abordagens de ensino-serviço-comunidade e interprofissionalidade (Campos; Domitti, 2007). No âmbito das políticas públicas, a integração entre saúde e assistência social, especialmente via Sistema Único de Saúde (SUS) e Sistema Único de Assistência Social (SUAS), requer não somente articulação técnica, mas também fortalecimentos ético-políticos e sociais (Pinto et al., 2018). Por sua vez, a formação acadêmica que combine trajetórias de Enfermagem e Serviço Social pode favorecer essa articulação, rompendo silos epistemológicos e ampliando a compreensão sobre cuidado e cidadania (Vasconcelos, 2019). Neste contexto, a experiência de docente com formação integral em Enfermagem e inserção pós-doutoral em Serviço Social configura-se como ponto de partida para analisar os desafios e possibilidades da transdisciplinaridade, contribuindo para o debate sobre a produção de práticas integradas em políticas de saúde e assistência social. Objetivo: Analisar, a partir da trajetória acadêmica e profissional de docente com formação integral em Enfermagem e inserção pós-doutoral em Serviço Social, os desafios e possibilidades do diálogo transdisciplinar entre essas áreas no fortalecimento das políticas públicas de saúde e assistência social no Brasil, explorando convergências e divergências epistemológicas, barreiras institucionais e culturais, bem como potencialidades de integração interprofissional e intersetorial. Metodologia: Trata-se se um relato de experiência, em uma abordagem qualitativa, de caráter reflexivo e experiencial, alicerçada na imersão do pesquisador em dois campos de saber distintos, porém convergentes no cuidado integral e na promoção da cidadania. Tal abordagem favorece compreensão aprofundada de fenômenos sociais a partir da subjetividade e da experiência do sujeito (Pinto et al., 2018). Para reflexão sobre a prática, recorreu-se à autores que abordam integralidade na prática (Mattos, 2004), metodologias interdisciplinares em saúde (Campos; Domitti, 2007), formação interprofissional (Pinto et al., 2018), intersetorialidade em políticas públicas (Souza et al., 2020) e formação crítica em profissionais de saúde (Vasconcelos, 2019). A análise reflexiva foi estruturada em três eixos: (a) convergências e divergências epistemológicas e práticas entre Enfermagem e Serviço Social; (b) desafios institucionais, culturais e políticos para integração; (c) potencialidades do diálogo transdisciplinar no fortalecimento do SUS e do SUAS. O material empírico consistiu nas vivências acadêmicas e profissionais do pesquisador, articuladas crítica e comparativamente com a produção científica revisada, em consonância com abordagem hermenêutica e interpretativa aplicada aos fenômenos sociais (Vasconcelos, 2019). Resultados e discussão: As experiências incluíram: (a) participação do pós-doutorando em aulas para graduação no Curso de Bacharelado em Serviço Social, na disciplina Serviço Social e Saúde; (b) condução de minicurso para pós-graduandos de todas as áreas sobre ética em pesquisa com seres humanos e submissão de projetos de pesquisa ao Sistema de Comitês de Ética em Pesquisa e do Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (CEP/CONEP) via Plataforma Brasil; (c) participação ativa e emissão de pareceres em projetos de Mestrado e Doutorado Acadêmicos em Serviço Social durante reuniões do Núcleo de Pesquisa Interdisciplinar Sociedade, Família e Políticas Sociais (NISFAPS), vinculado ao Departamento de Serviço Social e ao Programa de Pós-Graduação em Serviço Social (PPGSS) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Campus Florianópolis-SC; (d) condução de projeto de pesquisa de pós-doutorado, com objetivo de analisar a formação de profissionais de saúde e suas possibilidades e desafios para consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) em Chapecó-SC, na perspectiva da integração ensino-serviço-comunidade na Macrorregião do Grande Oeste de Santa Catarina; e (e) submissão e/ou publicação de resumos simples, expandidos, artigos e capítulos de livros com reflexões e problematizações que entrelaçaram Enfermagem, Serviço Social, SUS, formação em saúde, e grupos socialmente vulnerabilizados. Esta trajetória indicou que Enfermagem e Serviço Social compartilham convergências epistemológicas e práticas significativas, sobretudo quanto ao compromisso ético-político com a defesa da vida, equidade, cuidado integral e trabalho multiprofissional (Mattos, 2004). Tal convergência reforça a compreensão de que ambas as áreas reconhecem os determinantes sociais da saúde e a necessidade de respostas intersetoriais para enfrentamento das desigualdades (Souza et al., 2020). Em termos práticos, ambos os campos defendem abordagens centradas na escuta do usuário, na escuta ativa, e na construção coletiva de intervenções — aspectos fundamentais à efetividade de políticas integradas. Contudo, os resultados também evidenciaram barreiras relevantes, como a hegemonia persistente do modelo biomédico nos currículos e práticas de saúde que tende a invisibilizar determinantes sociais mais amplos e limita práticas interdisciplinares (Campos; Domitti, 2007). A cultura acadêmica hierárquica, que robustece silos disciplinares e restringe o diálogo horizontal entre profissões, constitui obstáculo à transdisciplinaridade (Vasconcelos, 2019). Institucionalmente, a ausência de espaços formais dedicados ao ensino interprofissional e à extensão integrativa entre Enfermagem e Serviço Social fragiliza potencialidades de cooperação. Em contraponto, foram identificadas possibilidades promissoras de integração: promoção de projetos de pesquisa e extensão interprofissionais e intersetoriais, com foco na produção de conhecimento aliado à intervenção social e sanitária (Pinto et al., 2018); fortalecimento de instâncias de controle social e participação comunitária como arenas de diálogo entre saberes e demandas reais; desenvolvimento de currículos formativos que incorporem conteúdos transdisciplinares, reflexivos e orientados à complexidade da prática profissional. As vivências do pesquisador demonstraram que, quando há aproximação efetiva entre Enfermagem e Serviço Social, emergem práticas integradas, articuladas com políticas públicas e sensíveis aos determinantes sociais, ampliando o alcance do cuidado e da atuação cidadã. Exemplos exitosos em diferentes contextos regionais confirmam que educação permanente, projetos extensionistas e instâncias participativas fortalecem a articulação entre sistemas de saúde e assistência social, contribuindo para ampliamento de acesso, qualidade e equidade (Souza et al., 2020). Assim, o diálogo transdisciplinar entre Enfermagem e Serviço Social, alicerçado em formação crítica e interprofissional, emerge como estratégia transformadora, capaz de reconfigurar práticas, currículos e políticas públicas, contribuindo decisivamente para o fortalecimento institucional do SUS e do SUAS, e para a construção de um campo de cuidado que congregue sensibilidade, justiça social e eficácia institucional. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: Os resultados dialogam com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), em especial com o ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), ODS 4 (Educação de Qualidade) e ODS 10 (Redução das Desigualdades). Ao promover formação interprofissional e práticas integradas, o estudo contribui para a garantia de acesso universal e equitativo a serviços de saúde e assistência social (ODS 3). Ressalta a importância de currículos críticos e transdisciplinares para formação profissional (ODS 4) e enfatiza a redução das desigualdades sociais por meio de políticas públicas intersetoriais sensíveis aos determinantes sociais (ODS 10) (Souza et al., 2020; Vasconcelos, 2019). Além disso, ao valorizar práticas ético-políticas comprometidas com a defesa dos direitos humanos e da cidadania, este trabalho fortalece a saúde enquanto direito social coletivo (Mattos, 2004; Pinto et al., 2018), reforçando a dimensão democrática e universal dos sistemas públicos. Considerações finais: Conclui-se que o diálogo transdisciplinar entre Enfermagem e Serviço Social, ao articular dimensões teóricas, éticas, políticas e práticas, constitui estratégia promissora para o fortalecimento das políticas públicas de saúde e assistência social no Brasil. A experiência analisada demonstra que, apesar de barreiras epistemológicas, institucionais e culturais, existem possibilidades concretas de integração que podem transformar a formação profissional, a organização dos serviços e a qualidade da resposta às necessidades sociais e sanitárias. Recomenda-se investimentos institucionais e educacionais que promovam espaços interprofissionais, currículos integrados e projetos de intervenção coletiva, bem como ampliação de pesquisas reflexivas que aprofundem o potencial da transdisciplinaridade na consolidação do SUS e do SUAS como sistemas universais, equânimes, democráticos e sensíveis à complexidade da vida social brasileira.
