CARACTERIZAÇÃO SOCIODEMOGRÁFICA DE PESSOAS COM HIPERTENSÃO ARTERIAL EM UM MUNICÍPIO DO OESTE DE SANTA CATARINA
Resumo
Introdução: Ao longo do tempo, os avanços da medicina, na educação e na economia tem modificado os padrões de saúde e doença da população brasileira. Isso se deve às transições demográfica, epidemiológica e nutricional, pelas quais países tais como o Brasil estão passando (Mendes, 2018). A transição demográfica é caracterizada pela diminuição da natalidade e aumento da expectativa de vida, com consequente aumento no número de pessoas idosas (Mendes, 2018). Interligado a isso, tem-se observado um aumento das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), de tal modo que o Brasil possui atualmente um plano de ações estratégias para o enfrentamento destas doenças (Brasil, 2021). As DCNT representam um dos maiores desafios da saúde pública, se caracterizam por condições em geral de progressão lenta e duração prolongada, que impactam na qualidade de vida da população e exigem cuidado longitudinal (Mendes, 2018; Brasil, 2021). Entre as DCNT, as doenças cardiovasculares (DCV) estão entre as principais causas básicas de óbitos a partir dos 30 anos de idade (Brasil, 2021), e um dos principais fatores de risco para as DCV e para mortalidade prematura é a hipertensão arterial sistêmica (HAS) (Barroso et al., 2021). Dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, com 88.531 indivíduos de 18 anos ou mais, demonstraram uma prevalência de HAS autorreferida igual a 23,9% (Malta et al., 2019). A HAS é uma DCNT que está relacionada com fatores de risco modificáveis e não modificáveis, tais como a predisposição genética, idade avançada, obesidade, sedentarismo, má alimentação, tabagismo e etilismo (Barroso et al., 2021; Malta et al., 2019). Desse modo, a identificação de fatores de risco e a caracterização sociodemográfica de pessoas que vivem com a HAS é importante, por meio da qual é possível planejar e implementar ações voltadas à promoção da saúde e prevenção da HAS. A partir disso este estudo adotou como pergunta de pesquisa: Quais são as características sociodemográficas de pessoas de um pequeno município do oeste de Santa Catarina que vivem com hipertensão arterial? Tal questão procura ampliar o conhecimento desta população para subsidiar ações de promoção à saúde, cuidado e acompanhamento. Objetivo: delinear o perfil sociodemográfico de pessoas diagnosticadas com Hipertensão Arterial Sistêmica em um município do oeste de Santa Catarina, Brasil. Metodologia: estudo exploratório e descritivo, com abordagem quantitativa, no qual foram coletados dados de 282 pessoas com diagnóstico de hipertensão arterial de um pequeno município do Oeste catarinense para caracterização sociodemográfica. Os dados foram coletados a partir de relatório gerado no sistema eletrônico de registros de saúde do município, no dia 26 de agosto de 2025. As variáveis incluíram os dados de idade, sexo, raça/cor, localidade, dados antropométricos e pressão arterial aferida na última consulta na unidade de saúde. Para coleta dos dados, foi criado um formulário no Google forms®, preenchido com identificação dos usuários por meio de números sequenciais (01-282), dados de idade, sexo (feminino/masculino), cor (branca, parda, preta, amarelo ou indígena), localidade (urbana ou rural), IMC calculado com dados de peso e altura ou não apresenta (quando as informações necessárias para o cálculo não constavam do relatório), e registrou-se a pressão arterial aferida na última consulta na unidade de saúde. Para análise dos dados utilizou-se da estatística descritiva, com cálculo de frequência relativa. Esta pesquisa faz parte de um projeto matricial intitulado “Doenças Crônicas Não Transmissíveis e condições de saúde”, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal da Fronteira Sul sob parecer n° 6.978.245. Resultados e discussão: das 282 pessoas com HAS no município, 61,3% eram do sexo feminino e 38,7% do sexo masculino, sendo que, segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de homens (n = 1450) excede o número de mulheres (n = 1389) (Brasil, 2022). Resultado semelhante foi evidenciado na Pesquisa Nacional de Saúde, na qual a prevalência de HAS foi mais alta entre as mulheres, o que pode ter refletido o fato de, em geral, as mulheres terem maior oportunidade de diagnóstico pela relação estabelecida com os serviços de cuidado de saúde (Malta et al., 2022). A idade dos participantes variou entre 22 e 93 anos, sendo que 74,5% eram maiores de 60 anos, 23,8% encontravam-se na faixa de 40 a 59 anos, 1,4% de 25 a 39 anos e 0,4% entre 18 e 24 anos. Um dos fatores de risco não modificáveis para a hipertensão arterial é a idade avançada, pois, com o tempo, as artérias perdem a complacência e tendem a enrijecer, fazendo com que o percentual de pessoas com HAS aumente com a idade (Barroso et al., 2021). Ainda, 87,9% das pessoas com HAS se declararam como raça/etnia branca, 6,4% parda, 3,5% preta e 2,1% autodeclarados como raça/etnia amarela. Acredita-se que este dado reflita a colonização do município, onde a maior parte da população é de ascendência italiana, portuguesa ou alemã. O município em questão conta com uma população estimada em 2.839 habitantes (Brasi, 2022), sua economia é predominantemente agrícola, o que se reflete nos 65,2% dos usuários analisados residentes em área rural, enquanto 34,8% em área urbana. Além dos fatores sociodemográficos estudados, existem fatores de risco modificáveis que estão diretamente relacionados com a HAS, como o excesso de peso (sobrepeso ou obesidade). Dos 282 pacientes avaliados, 47,2% apresentaram obesidade, 1,1% obesidade grave e 33% sobrepeso, enquanto 17,7% estavam na faixa de peso considerada adequada. Destaca-se que, dentre aquelas com idade igual ou superior a 60 anos, 78,1% foram classificadas como obesidade e sobrepeso. No qual, o ponto de corte utilizado para classificar os idosos com obesidade foi o IMC de 30 kg/m² e o de sobrepeso com IMC de 27 kg/m². Entretanto, 1,1% não apresentaram os dados antropométricos necessários para o cálculo registrados no relatório. Embora neste estudo não tenha sido possível analisar associação estatística entre pressão arterial elevada e sobrepeso ou obesidade, sabe-se que a obesidade é um importante fator de risco para HAS (Barroso et al., 2021; Malta et al., 2022). Sobre os registros de pressão arterial da última consulta, os dados variaram de 90/50 mmHg a 180/110 mmHg. Utilizando-se como base a diretriz brasileira (Barroso et al., 2021), 17,4% estavam com a pressão arterial ótima, 26,2% pressão arterial normal, 18,4% apresentaram níveis de pré-hipertensão, 30,1% com hipertensão arterial no estágio 1, 6,4% hipertensão estágio 2 e 1,4% apresentavam hipertensão arterial estágio 3, no momento da consulta. Estes achados reforçam a importância da atenção individualizada e centrada na pessoa. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: a pesquisa delineou o perfil de pessoas com HAS em acompanhamento na Atenção Primária à Saúde de um município, o que contribuiu para compreender o perfil local das pessoas com esta condição de saúde, contribuindo para o planejamento das ações de saúde, de cuidado e o acompanhamento deste grupo. Desse modo, a pesquisa se vincula ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 3 (Saúde e Bem-estar), mais especificamente com a meta 3.4, que visa reduzir a mortalidade prematura por DCNT por meio da prevenção e tratamento. Considerações finais: no município alvo, a população com HAS compreendeu predominantemente mulheres, pessoas com mais de 60 anos, de raça/etnia branca, residentes em área rural e com sobrepeso e/ou obesidade. É uma realidade nos dados epidemiológicos e na literatura técnica-científica o aumento no número de pessoas com diagnóstico de doenças crônicas, dentre as quais a HAS. Estudar os fatores que podem representar maior risco e/ou vulnerabilidade possibilita uma visão mais abrangente, assim como olhar mais qualificado e humanizado, voltado à prevenção de complicações e suporte multiprofissional adequado na Atenção Primária.
