DESMISTIFICANDO A PUBERDADE: ADVENTO DO PSE NA FORMAÇÃO ACADÊMICA E PROMOÇÃO DE DIÁLOGO EM SAÚDE

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Resumo

Introdução: O Programa Saúde na Escola (PSE) foi firmado no ano de 2007 a partir do Decreto nº 6.286 e possui por finalidade, contribuir com a formação integral dos estudantes da rede pública de educação básica, através de ações de prevenção, promoção e atenção à saúde (Brasil, 2007). Como preceito, a iniciativa busca a intersetorialidade entre a educação e a saúde, visto a importância da instituição escolar enquanto uma potência para o desenvolvimento do pensamento crítico e político, contribuindo para a construção de crenças, conceitos e valores de um indivíduo (Brasil, 2011). Para uma compreensão integral dos fenômenos do crescimento e desenvolvimento após a infância, podemos subdividi-los em três conceitos singulares: puberdade, adolescência e juventude (Brasil, 2010). A puberdade em si, é um período marcado inteiramente pelo crescimento corporal de indivíduos com idade entre 10 e 19 anos, e principalmente pela maturação biológica, conferindo capacidade reprodutiva. Por sua vez, a adolescência compreende os fenômenos da puberdade, mas para além disso, também abarca o desenvolvimento, isto é, fenômenos da mudança social, mental e psicológica desta fase. Por fim, a juventude se refere ao amadurecimento social e onde consolidam-se aspectos da personalidade. Cada um destes processos, marcam a transição entre a infância e a vida adulta, sendo assim, ações que abordem a temática, são de extrema importância. Desse modo, vislumbra-se o PSE como uma ferramenta elementar para promoção da saúde e para a construção social de indivíduos na adolescência. Pensando nisso, acadêmicos de Enfermagem visando disseminar conhecimento sobre a puberdade, realizaram uma atividade na escola local, vinculada à unidade básica de saúde, em que realizavam atividades práticas. Objetivo: Relatar a experiência de acadêmicos de Enfermagem na condução de uma atividade educativa sobre puberdade com adolescentes, desenvolvida no contexto do PSE. Metodologia: Trata-se de um relato de experiência sobre uma atividade realizada por acadêmicos de Enfermagem, em uma escola pública do Oeste Catarinense, com adolescentes de 11 a 13 anos de idade, durante Atividade Teórico Prática (ATP) do Componente Curricular (CCR) O Cuidado no Processo do Viver Humano II, que se propõe a instrumentalizar graduandos de Enfermagem sobre a assistência nos ciclos de vida da mulher, neonato, crianças e adolescente. Com a temática escolhida pela escola, puberdade, os acadêmicos iniciaram o planejamento da atividade buscando referenciais teóricos que pudessem embasar as explicações acerca da temática. Em seguida, definiram o uso de perguntas de verdadeiro ou falso, como atividade principal da dinâmica, e confeccionaram 6 placas, 3 com a letra F e 3 com a letra V, para simbolizar as respostas dos estudantes. Descreveram em slides, as definições de Puberdade, Adolescência e Juventude, conforme diferenciado pela Organização Mundial de Saúde e pelo Ministério da Saúde, e elaboraram 6 perguntas. Também selecionaram o vídeo intitulado "Mudanças corporais na puberdade", disponibilizado pelo canal Museu de Anatomia IBB Unesp no Youtube, para reproduzir antes das perguntas. Resultados e discussão: a atividade foi realizada no dia 8 de maio de 2024, no período matutino, com duas turmas do 6° ano, iniciando com a identificação dos acadêmicos e apresentação dos conceitos de puberdade, adolescência e juventude descritos nos slides, que resultou em inicial silêncio por parte dos adolescentes, e expressões de falta de entendimento. Seguida da reprodução do vídeo, momento que gerou euforia nos adolescentes, pois demonstrava as alterações no crescimento dos genitais masculino e feminino, a liberação de hormônios, o crescimento das mamas e dos pelos pubianos, além de outras mudanças, como o aparecimento de espinhas e o aumento do odor corporal. Com o término do vídeo, os acadêmicos explicaram aos adolescentes que iriam realizar uma dinâmica com perguntas, que eles utilizariam placas para responder e pediram para os alunos se dividirem em grupos. É válido destacar que a primeira turma foi dividida em três grupos para facilitar o desenvolvimento da dinâmica proposta, haja vista que, estavam em maior quantidade, enquanto a segunda turma foi dividida em dois grupos. Adiante, as perguntas começaram a ser apresentadas, e lidas pelos acadêmicos, enquanto os alunos eram incentivados a responder com verdadeiro ou falso. Depois de cada resposta dos grupos, um dos acadêmicos abordava e explicava o tópico da pergunta, visando reforçar o assunto abordado, e produzir maior entendimento. Um estudo que avaliou o nível de conhecimento de adolescentes de 10 a 14 anos, em escolas públicas, sobre adolescência, desenvolvimento puberal e sexualidade, evidenciou nível de informação insatisfatório entre os adolescentes, com destaque entre as meninas e entre os estudantes das 4ª e 5ª série, quando comparados aos meninos e aos estudantes das 6ª e 8ª série, respectivamente (Gomes et al., 2002). Com a experiência relatada, os acadêmicos foram surpreendidos com o nível de instrução dos adolescentes, já que os mesmos expressavam conhecimento sobre aspectos da sexualidade. Além de identificar as mudanças no próprio corpo e realizar interligações do assunto com momentos vivenciados por eles, causando alteração na percepção dos acadêmicos sobre o indivíduo adolescente, que antes da atividade, era visto como intransigente e por vezes como pouco receptivo a interação social com figuras de autoridade. Durante todas as etapas da atividade, as meninas expressaram maior atenção e interesse pela atividade, mas os meninos foram mais participativos, demonstrando os conhecimentos que detinham, o que corrobora com o estudo descrito anteriormente. Todo o processo de elaboração e aplicação da atividade foi muito pautado na dificuldade em entender que adolescentes necessitam de cuidados assim como os indivíduos de outras faixas etárias. E a atividade foi fundamental para conscientizar os acadêmicos que adolescentes são indivíduos que precisam ser ensinados a lidar com o próprio corpo, precisam ser reconhecidos como indivíduos que estão lidando com a elevação abrupta dos níveis hormonais, necessitam de apoio para lidar com as mudanças biopsicossocioespiritual, e ainda aprenderem a como evitar situações que prejudiquem a saúde. Além disso, foram surpreendidos positivamente com a quantidade de informações que os adolescentes já tinham, fator que facilitou a condução da atividade. Apesar disso, é importante salientar que, ainda foi possível perceber que o tema é um tabu e um motivo de piadas e risos entre os adolescentes. Também se supõe de difícil aceitação por parte dos professores, que durante a atividade demonstraram expressões faciais de insatisfação e ainda demonstravam-se inacessíveis, fator que causou indignação e fez os acadêmicos questionarem se falharam ao dizer para os adolescentes que os professores podem ser pessoas de referência para conversar sobre as transformações, e que saberiam ajudar neste processo. Em um estudo realizado com adolescentes e professores que avalia o diálogo entre os mesmos no espaço escolar, foi constatado que mais de 70% dos estudantes somente discutem assuntos relacionados às matérias e conteúdos estudados, enquanto apenas 23% dizem conseguir ter um diálogo de assuntos pessoais esporádicos com os professores que sentem confiança (Tomás, Souza, s.d.). Sendo assim, é indubitável que o corpo docente desempenha um papel importante no processo de formação desses indivíduos, como uma figura de segurança e amparo para os mesmos, mas durante a atividade foi evidenciado o despreparo desses profissionais em lidar com o tema abordado. Por isso, os acadêmicos refletem sobre a necessidade do plano de ação do PSE considerar estratégias, em que os professores sejam o público-alvo, a fim de sensibilizá-los acerca da importância de trabalhar temáticas como a puberdade em sala de aula. Ao final da atividade com a segunda turma, uma adolescente buscou os acadêmicos para tirar dúvidas sobre a dor constante que sentia nas mamas, causando surpresa nos acadêmicos e ainda a sensação de satisfação, quando notaram o sentimento de gratidão por parte da adolescente ao término das orientações. Fazendo refletir que essa prática pode ser aliada na nossa atuação profissional. Evidenciando, a importância de trabalhar a temática de maneira individualizada na unidade de saúde, garantindo um espaço seguro, privativo, com profissionais capacitados, permitindo aos adolescentes expressarem suas necessidades e anseios, e receberem orientações asseguradas pela prática baseada em evidência. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: Este trabalho contribui com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 3 – Saúde e Bem-Estar, especialmente à meta 3.7, que prevê até 2030 assegurar o acesso universal aos serviços de saúde sexual e reprodutiva, incluindo informações e educação. A atividade realizada contribui para essa meta ao promover a disseminação de informações seguras sobre puberdade, adolescência e juventude, favorecendo a compreensão dos processos biopsicossociais dessa fase. Também dialoga com o ODS 4 – Educação de Qualidade, com destaque para a meta 4.7, que visa garantir que todos os alunos adquiram conhecimentos e habilidades necessárias para promover o desenvolvimento sustentável, incluindo a promoção da saúde. Nesse sentido, a experiência descrita fortaleceu a articulação entre saúde e educação, qualificando o ambiente escolar como espaço de aprendizagem integral. Considerações finais: conclui-se que, a experiência com a implementação de uma atividade do PSE, possibilitou aos acadêmicos a visualização da importância das ações do programa para a disseminação de informações confiáveis e seguras sobre a puberdade, e a garantia de um espaço para o esclarecimento de dúvidas sobre saúde sexual e reprodutiva. Além disso, como programa potencial para a capacitação dos profissionais da educação, acerca das mudanças sofridas pelos adolescentes, qualificando a rede de apoio. A experiência também gerou reflexões acerca da necessidade de evitar conclusões precipitadas sobre o público-alvo de suas atividades profissionais. Fez pensar sobre o atendimento no serviço de saúde, e o quanto é imprescindível garantir a qualidade das consultas de Enfermagem aos adolescentes.

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Publicado

16-01-2026