FORTALECIMENTO DO PROTOCOLO DE CIRURGIA SEGURA EM AMBIENTE AMBULATORIAL UNIVERSITÁRIO

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Resumo

Introdução: A crescente adoção de cirurgias ambulatoriais, impulsionada por avanços tecnológicos e pela necessidade de otimização dos serviços de saúde, demanda protocolos adaptados às particularidades desse cenário, a fim de garantir a segurança do paciente e a padronização dos processos. Em 2023, o Brasil registrou mais de 21 milhões de procedimentos cirúrgicos no SUS e rede privada. Desse total, mais de 700 mil foram procedimentos ambulatoriais realizados somente no estado de Santa Catarina (Brasil,2023). O número elevado de cirurgias ambulatoriais no estado mostra o impacto do Programa Nacional de Redução de Filas, priorizando a efetividade e alta rotatividade, com foco em procedimentos de menor complexidade que não requer internação. Nesse contexto, a utilização de protocolos de segurança, como o Checklist de Cirurgia Segura, torna-se fundamental para padronização das etapas críticas, prevenir erros e fortalecer a cultura de segurança (Porcari et al., 2020; Ministério da saúde, 2013). No entanto, estudos nacionais apresentam a baixa adesão ao preenchimento completo do checklist, resultando em lacunas que comprometem a efetividade do instrumento e expõem o paciente a riscos evitáveis (Ribeiro et al., 2019; Souza et al., 2018). Dessa forma, identifica-se a necessidade de revisão e adaptação dos instrumentos, inseridos à realidade ambulatorial, de modo a evitar fragilidades e alinhar práticas assistenciais às diretrizes internacionais. Este estudo busca preencher essa lacuna, aprimorando e validando um protocolo de cirurgia segura adaptado ao contexto ambulatorial universitário. Objetivos: Aprimorar e validar um protocolo de cirurgia segura para um centro cirúrgico ambulatorial universitário, fortalecendo a qualidade assistencial por meio da revisão e padronização de instrumentos. Metodologia: Trata-se de uma pesquisa de natureza aplicada, com abordagem quantitativa, realizada no Ambulatório de Especialidades Médicas de uma universidade, que executa procedimentos de baixa complexidade nas áreas de dermatologia, urologia e cirurgia geral. A pesquisa teve uma fase de diagnóstico local, momento em que avaliou-se a adesão ao protocolo de cirurgia segura vigente. A partir desse diagnóstico, elaborou-se uma nova versão do checklist, acompanhada de um Procedimento Operacional Padrão (POP) com orientações detalhadas para sua utilização. Ambos foram estruturados com base nas melhores práticas nacionais e internacionais e adaptados às especificidades do contexto ambulatorial. O processo de validação se deu por método Delphi, com duas rodadas de avaliação por nove enfermeiros especialistas em centro cirúrgico. A pesquisa está vinculada ao Macroprojeto denominado Gestão de Risco e Segurança do Paciente em um Ambulatório universitário do Sul do Brasil, submetido à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), sob o parecer nº 7.005.821, sendo executada no período de outubro de 2024 até julho de 2025. Resultados: Durante o período de novembro de 2024 a abril de 2025, os pesquisadores realizaram a avaliação da adesão dos profissionais do serviço de saúde ao checklist de cirurgia segura do ambulatório, instituindo um indicador para o protocolo de cirurgia segura. Nesta fase de diagnóstico, identificou-se a baixa adesão ao checklist de cirurgia segura, especialmente na etapa de admissão do paciente, momento crítico para a verificação de dados essenciais, como identificação, alergias e demarcação do local cirúrgico. Essa constatação, obtida por meio da análise quantitativa dos formulários utilizados na rotina do serviço, evidenciou adesão de 33,5% ao checklist de cirurgia segura, demonstrando fragilidades que poderiam comprometer a segurança assistencial, motivando a revisão e adequação do protocolo. Com base nas fragilidades da adesão, pode-se vislumbrar melhorias no checklist e no POP, a fim de melhorar a compreensão dos profissionais e tornar mais factível o uso do instrumento, por meio de adaptações voltadas ara o cenário ambulatorial e não hospitalar. A partir da revisão do POP e do checklist, iniciou-se a validação do instrumento, por meio da técnica Delphi. Foram realizadas duas rodadas de avaliação com os especialistas, sendo a primeira com apresentação da versão proposta para o POP e checklist aprimorados, e a segunda, para validar um novo documento, contemplando as alterações propostas pelos especialistas. A pesquisa foi realizada com a participação de nove enfermeiros especialistas, entre coordenadores e assistentes, atuantes na área cirúrgica, com o objetivo de avaliar os novos instrumentos, na busca de concordância entre os participantes, a fim de validar as informações contidas no novo checklist para o serviço. A análise dos dados coletados foi estruturada conforme os tópicos presentes no checklist utilizado, abrangendo: dados gerais do procedimento, admissão do paciente, etapa anterior ao início do procedimento, momento anterior à saída da sala operatória e etapa anterior à liberação do paciente. Além disso, foi avaliado o layout do checklist proposto. Na primeira rodada de avaliação pelos especialistas, o checklist apresentou Índice de Validade de Conteúdo total (IVCt) de 1,000, enquanto o Procedimento Operacional Padrão (POP) obteve 0,987, valores que expressam elevado grau de concordância entre os juízes quanto à pertinência e à clareza dos itens. As sugestões emitidas pelos avaliadores não comprometeram a estrutura central dos instrumentos, mas possibilitaram aprimoramentos pontuais. Entre os ajustes incorporados destacam-se: a inclusão de campos adicionais de identificação do paciente e da equipe, a especificação mais detalhada de equipamentos indispensáveis à execução do  procedimento e o registro minucioso de exames laboratoriais e de peças cirúrgicas, favorecendo a rastreabilidade e a segurança assistencial. Na segunda rodada de análise, após a incorporação dessas modificações, o checklist obteve IVCt de 0,889, indicando pequenas divergências de opinião entre os avaliadores em comparação com a primeira rodada, possivelmente em razão da ampliação de itens avaliados. Em contrapartida, o POP alcançou concordância plena, com IVCt de 1,000. Assim, o valor global obtido (IVCt = 0,945) confirma a consistência técnica, a clareza e a aplicabilidade prática dos instrumentos revisados. Esses achados reforçam que o processo de validação, fundamentado na participação de especialistas e na retroalimentação contínua, favorece a adequação metodológica e a aderência dos protocolos à realidade operacional do serviço, fortalecendo a confiabilidade e a relevância de sua utilização no cotidiano assistencial. Esta pesquisa está em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente o ODS 3-Saúde e Bem-Estar, ao fortalecer a segurança do paciente em cirurgias ambulatoriais. Também se relaciona ao ODS 4- Educação de Qualidade, pela capacitação das equipes de saúde e ao ODS 16- Instituições Eficazes, pela padronização de protocolos e gestão mais segura. Considerações finais: A experiência demonstrou que a elaboração colaborativa, aliada à validação estruturada e à implementação acompanhada de ações educativas, favorece a adesão da equipe e o alinhamento entre as exigências de segurança e a rotina assistencial. Recomenda-se que, além da adoção dos instrumentos revisados, sejam mantidos o monitoramento contínuo por indicadores e a capacitação periódica das equipes, fortalecendo a cultura de segurança do paciente e prevenindo eventos adversos. Assim, o fortalecimento do protocolo de cirurgia segura em ambiente ambulatorial universitário, a partir da adaptação de instrumentos e da participação ativa de especialistas, mostra-se uma estratégia viável e necessária para a qualificação do cuidado, contribuindo para a consolidação da política de gestão de riscos e segurança do paciente.

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Publicado

16-01-2026

Edição

Seção

Políticas, gestão em saúde, saúde digital e tecnologias na saúde