VIVÊNCIA ACADÊMICA NA VACINAÇÃO DE PESSOAS PRIVADAS DE LIBERDADE EM UMA PENITENCIÁRIA DO OESTE CATARINENSE

Autores/as

Resumen

Introdução: A vacinação é reconhecida como uma das estratégias mais eficazes de prevenção em saúde pública, responsável por reduzir significativamente a morbimortalidade por doenças imunopreveníveis. Em ambientes de privação de liberdade, essa prática assume papel ainda mais relevante, visto que a aglomeração, as condições precárias de infraestrutura e a vulnerabilidade social favorecem a disseminação de doenças transmissíveis e dificultam o controle de infecções (Brasil, 2023). A população privada de liberdade é considerada prioritária em campanhas de imunização, tanto por sua maior exposição às doenças quanto pela relevância epidemiológica no controle de surtos em espaços coletivos. Contudo, diversos fatores socioculturais, como baixa escolaridade, histórico de exclusão social, estigma e dificuldade de acesso a serviços de saúde antes da prisão, contribuem para esquemas vacinais incompletos. Assim, ações de imunização em unidades prisionais não apenas controlam doenças, mas também reafirmam o direito universal à saúde, consolidando o Sistema Único de Saúde (SUS) como promotor de equidade (Andrade et al., 2021). Objetivo: Relatar a experiência acadêmica vivenciada durante a participação em uma ação de vacinação em uma penitenciária do Oeste Catarinense, destacando desafios, aprendizados e contribuições para a formação em enfermagem e para a saúde pública. Metodologia: Trata-se de um relato de experiência acadêmica, realizado por estudantes do curso de graduação em Enfermagem da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), durante o Estágio Curricular Supervisionado II na Vigilância Epidemiológica, contemplando práticas de gestão e coordenação de ações em saúde. A atividade ocorreu em uma penitenciária do Oeste Catarinense, em articulação com a equipe de saúde da unidade prisional e profissionais da Vigilância Epidemiológica Municipal. A ação foi organizada em três etapas: planejamento (identificação de vacinas em atraso nos prontuários), logística (preparo e transporte dos imunobiológicos) e execução (aplicação das vacinas nas alas, sob supervisão da equipe de segurança), seguida do registro das doses nos sistemas oficiais. Todo o processo foi acompanhado por profissionais de enfermagem da rede municipal, assegurando respaldo técnico e conformidade com o Programa Nacional de Imunizações (PNI).  Resultados e discussão: A ação permitiu a atualização da situação vacinal de 223 pessoas privadas de liberdade, totalizando a aplicação de 934 doses: 174 de Hepatite B (HB), 136 de Dupla Adulto (dT), 139 de Febre Amarela (FA), 173 de Tríplice Viral (VTV), 95 de Influenza (INFLU) e 217 de Covid-19. Parte expressiva dos internos apresentava esquemas vacinais incompletos, confirmando a necessidade de estratégias contínuas de imunização e acompanhamento sistemático. Os principais desafios identificados foram a necessidade de articulação entre setores de saúde e segurança para viabilizar o acesso aos internos, a adaptação ao ambiente prisional e a manutenção da biossegurança da equipe. Tais aspectos estão em consonância com a literatura, que aponta a complexidade do cuidado em contextos de privação de liberdade (Fernandes; Almeida, 2021). Do ponto de vista sociocultural, a baixa escolaridade, a exclusão social e a vulnerabilidade prévia à prisão contribuem para lacunas na adesão vacinal, refletindo desigualdades históricas em saúde. Esse cenário reforça a importância de estratégias educativas e de políticas intersetoriais que articulem saúde, educação e justiça para a garantia de direitos fundamentais. Do ponto de vista epidemiológico, a ampliação da cobertura vacinal nesse contexto repercute não apenas na redução de surtos intramuros, mas também na proteção de trabalhadores do sistema prisional e da comunidade externa, prevenindo a sobrecarga nos serviços de saúde. Organismos internacionais, como a OPAS (2022), destacam que a vacinação em populações vulneráveis é fundamental para a equidade em saúde global. Além disso, a experiência acadêmica possibilitou aos estudantes o desenvolvimento de competências técnicas, como a administração segura de imunobiológicos, e relacionais, como empatia, comunicação e respeito às especificidades dessa população. Esse aprendizado amplia a formação profissional e reforça o papel da enfermagem na promoção da saúde coletiva e na defesa dos direitos humanos. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: O trabalho contribui diretamente para o ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), ao reforçar a vacinação como estratégia de prevenção em populações vulneráveis. Relaciona-se ao ODS 10 (Redução das Desigualdades), por garantir acesso equitativo às vacinas, independentemente da condição social ou situação de liberdade. Dialoga, ainda, com o ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes), ao evidenciar a importância da articulação intersetorial entre saúde e sistema prisional para assegurar direitos humanos e promover o cuidado integral. Considerações finais: A vacinação em contexto prisional representou uma oportunidade singular de aprendizado acadêmico, unindo prática técnica, reflexão crítica e vivência em um cenário de vulnerabilidade social. A experiência evidenciou a relevância da enfermagem na promoção da saúde coletiva e na defesa de direitos, ao mesmo tempo em que contribuiu para a formação de profissionais mais sensíveis, comprometidos e preparados para atuar em diferentes realidades. Conclui-se que a continuidade de ações de imunização em penitenciárias é fundamental para a promoção da equidade em saúde, para a redução de riscos epidemiológicos e para o fortalecimento do SUS como sistema público universal.

Publicado

16-01-2026