MATERNAGEM ATÍPICA SOB A ÓTICA DE PETIANOS

Autores/as

Resumen

Introdução: Enquanto a maternidade se limita ao parente direto em linha ascendente, maternar possui um conceito amplificado, já que se direciona ao ato de cuidar, o qual não necessariamente precisa ser exercido pela mãe, mas sim por aquela pessoa que assume o cuidado - seja ela avó, tia ou até mesmo uma pessoa externa ao contexto familiar. Historicamente, a maternidade restringia-se ao ato de parir ou adotar, enquanto maternar, um conceito moderno, é direcionado ao exercício contínuo do zelo, com estabelecimento de confiança e compromisso permanente (Meneses; Pimentel; Lins, 2022). O termo maternidade atípica começou a ser empregado para designar mães de crianças que não apresentam desenvolvimento dentro do esperado para a faixa etária, ou seja, uma maternidade despadronizada, particular e própria (Pastorelli; Viana; Benincasa, 2024). Nesse contexto, destaca-se que a partir do conceito apresentado pela Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Pessoa com Deficiência (PNAISPD), Pessoa com Deficiência (PcD) é aquela que possui “[...] impedimento de longo prazo de natureza física, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas.” (Brasil, 2023), portanto, maternagem atípica refere-se ao cuidado contínuo exercido pela figura materna (seja ela mãe ou outra cuidadora) direcionado à uma pessoa com deficiência. Por conseguinte, soma-se aos desafios já conhecidos da maternagem, todas as questões relacionadas às particularidades do PcD, que envolve aceitação, alteração da dinâmica familiar, isolamento, mudanças, renúncias, além das dificuldades impostas pela sociedade (Pastorelli; Viana; Benincasa, 2024). A atualização da PNAISPD, produzida levando em conta os desafios evidenciados na maternagem atípica, traz como ação estratégica do eixo “promoção da saúde, qualidade de vida e prevenção”, um tópico direcionado à saúde do cuidador: “VIII - prevenção de agravos e promoção da saúde dos familiares, cuidadores e acompanhantes das pessoas com deficiência”, a fim de garantir o acesso integral à saúde das famílias compostas por PcD e seus cuidadores (Brasil, 2023). Para tanto, justifica-se o presente trabalho a partir da relevância da temática para o contexto da saúde pública, já que predispõe um cuidado ampliado e humanizado de todo o núcleo familiar composto por um PcD, além de trazer uma reflexão, sob a ótica de acadêmicos de enfermagem e medicina após atividades de extensão, sobre essa temática que não é abordada especificamente nos Projetos Pedagógicos dos Cursos. Objetivo: Relatar as experiências dos integrantes de um grupo tutorial do PET-Saúde Equidade, adquiridas em rodas de conversa com mães atípicas, sobre o aspecto e o contexto da maternagem. Metodologia: Trata-se de um relato de experiência, descritivo e crítico sobre as vivências de integrantes do grupo tutorial 1 do Programa de Educação Pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde), edição 2024-2026, com a temática Pessoas com Deficiências. As experiências sobre o maternar atípico ocorreram de junho de 2024 a agosto de 2025, e envolveram atividades de roda de conversa e sensibilização sobre deficiência com a comunidade e com os profissionais de saúde no contexto da equidade, foco desta edição do PET. Resultados e discussão: A maternagem é descrita na bibliografia como um vínculo associado a interação afetiva e física vivenciada entre mãe e filho  (Gradvohl, Osis, Makuch, 2014). Atualmente, na prática cotidiana, observa-se que novos rearranjos familiares, o contexto social e a influência das tecnologias reprodutivas mais recentes estão mudando o conceito precedente de maternagem. Assim, Gradvohl  e seus colaboradores (2014) consideram que, o contexto histórico, cultural, questões econômicas modificam a construção social da relação entre mãe e filho, que vai além da relação biológica afetiva. Nesse contexto, nos diálogos com mães atípicas durante rodas de conversa realizadas pelo grupo foi possível perceber, através do relato de mães de filhos com as mais diversas deficiências (física, intelectual, visual, auditiva), como a maternagem atípica pode ser um desafio. Todas as mães atípicas relataram que os cuidados com os filhos atípicos são individualizados e exigem uma maior atenção ou dedicação do cuidador materno, na maioria dos casos, e familiar. Assim, como relatado, as mães atípicas na sociedade atual, frequentemente ficam sobrecarregadas ao gerenciar concomitantemente as necessidades individuais da mãe, as atividades profissionais e o cuidado materno com um filho. Essas mães na maioria dos relatos eram profissionais que trabalhavam por até 44 horas semanais, algumas mães solos (abandonadas por companheiro no processo de maternar), sem apoio financeiro do núcleo familiar ou governamental e não tinham suporte parental adequado no cuidado diário com o filho, ou sequer uma rede de apoio. Essa é uma dificuldade que leva à sobrecarga materna atípica, aliada a dificuldade de acesso à informação e de políticas públicas, principalmente ao se tratar de pessoas com menor nível de escolaridade. Ser mãe de uma criança atípica transforma de maneira profunda a dinâmica familiar, impondo adaptações contínuas tanto nas rotinas diárias quanto nas expectativas. Nesse contexto, as mães assumem papel central na socialização e no desenvolvimento dos filhos, enfrentando desafios que permanecem, em grande parte, invisíveis aos olhos da sociedade (Eberth; Lorenzini; Silva, 2015). Ademais, percebe-se que, apesar da atualização da PNAISM em 2023 levar em consideração a saúde do cuidador atípico, o que se evidencia é uma sobrecarga tanto emocional quanto física que muitas vezes impacta diretamente na saúde e que, por conseguinte, influenciará também no bem-estar da pessoa com deficiência sob as quais os cuidados estão direcionados. Outro ponto relevante a ser relatado se refere à experiência em rodas de conversa com os profissionais das Unidades Básicas de Saúde, nas quais as equipes puderam contribuir com seu conhecimento sobre a população adscrita de cada área e relatar como enxergam a maternagem atípica a partir da observação e do contato com as famílias que atendem. Estes relatos, em sua maioria realizados pelas Agentes Comunitárias de Saúde, por serem quem possui maior vínculo e contato domiciliar rotineiro com essas famílias, corroboram para concepção de que a maternagem atípica sobrecarrega um cuidador que precisa assumir todas as responsabilidades e deveres e que, por vezes, acaba por cercear seus próprios cuidados em prol do outro. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: O presente estudo vincula-se com o objetivo 10 “Redução das desigualdades” e meta 10.2 “Até 2030, empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de todos, independentemente da idade, gênero, deficiência, raça, etnia, origem, religião, condição econômica ou outra”, tendo em vista o seu cunho educativo e sensibilizador. Considerações finais: Com as experiências foi possível compreender as dificuldades encontradas no maternar atípico, principalmente no que tange a mãe atípica e a sobrecarga exercida sobre ela. É evidente que existe a necessidade de se discutir mais o assunto, tendo em vista a importância da temática e da realização de tais atividades, com objetivo de  fomentar a sensibilização dos indivíduos, além da criação de redes de apoio a essas mães, facilitando também a difusão de informações sobre direitos dessa população. As vivências nas oficinas foram importantes para a formação profissional, pois possibilitou a visualização do indivíduo a partir de um olhar longitudinal, sem pré-conceitos. Por fim, reitera-se a necessidade de ampliar as políticas direcionadas ao cuidado às mães atípicas, além de implementar na prática aquelas já existentes, visto tamanha responsabilidade evidenciada nas rodas de conversa as quais impactam diretamente no bem-estar e saúde de todo o núcleo familiar.

Publicado

16-01-2026