VULNERABILIDADES, VIOLÊNCIAS, PESSOAS COM DEFICIÊNCIA NO MEIO RURAL: INTERCONEXÕES PARA O CUIDADO EM ENFERMAGEM
Resumo
Introdução: A vulnerabilidade em saúde é um conceito que ultrapassa os limites biológicos e abrange dimensões sociais, econômicas, culturais e territoriais. Nesse contexto, pessoas com deficiência que vivem em áreas rurais enfrentam maiores barreiras de acesso, discriminação e ausência de suporte adequado, o que amplia desigualdades e as expõe a diversas formas de vulnerabilidade e violência. A enfermagem, por estar inserida em todos os níveis de atenção do Sistema Único de Saúde (SUS) e manter proximidade direta com a comunidade, desempenha papel estratégico no enfrentamento dessas questões. Sua prática envolve lidar simultaneamente com diferentes vulnerabilidades desde a exclusão social e econômica até as condições de saúde física e mental, oferecendo cuidado integral, acolhimento e mediação com as redes de apoio. Essas ações contribuem para reduzir desigualdades, promover inclusão e assegurar direitos, ainda que persistam desafios relacionados à formação profissional, às condições de trabalho e à estrutura dos serviços. Nesse sentido, compreender como a produção científica discute a atuação da enfermagem diante de múltiplas vulnerabilidades é essencial para fortalecer o cuidado e subsidiar políticas públicas mais equitativas. Objetivo: Analisar as evidências científicas que trazem sobre a interconexão entre vulnerabilidades, violências, pessoas com deficiência e a ruralidade, a fim de pensar o cuidado em enfermagem. Metodologia: Foi realizada uma revisão narrativa da literatura brasileira com busca na base SciELO Brasil, utilizando os seguintes descritores: enfermagem, vulnerabilidade, violência, deficiências e meio rural. Após leitura exploratória e analítica, foram selecionados quatro artigos e as informações foram organizadas e discutidas, através disso foram incluídos artigos publicados entre 2013 e 2023 que abordam práticas ou estratégias de cuidados da enfermagem nesses contextos e excluídos o que fugiam do tema em questão, não trazendo interconexão dos descritores explorados na pesquisa. Resultados e discussão: Os artigos revelam que os enfermeiros atuam na linha de frente do cuidado a vítima de violência, em especial violência doméstica e sexual contra mulheres, o acolhimento humanizado, a escuta ativa e as notificações são fundamentais para o paciente. Contudo, grande parte dos profissionais afirmam que sentem dificuldade no manejo destas situações, principalmente, no que se refere à identificação rápida dos sinais de violência. Constata-se assim, dificuldades de reconhecimento da violência pelos profissionais da saúde, sendo a falta de capacitação profissional um fator motivador para isso. A cerca dessa linha de raciocínio, se reforça a necessidade de capacitação permanente, bem como a integração da enfermagem com serviços jurídicos, psicológicos e de assistência social (Martins et al., 2018). Além disso, sugere-se que a enfermagem precisa considerar a desigualdade de gênero em suas ações, pois muitas mulheres ficam sobrecarregas no trabalho, enfrentam violência e não possuem autonomia própria. Atender mulheres que vivenciam violência de gênero requer do profissional da Estratégia de Saúde da Família (ESF) uma visão de mundo e de práticas de cuidado voltadas a opressão feminina, o cuidado deve ser dobrado para contemplar também aspectos sociais e subjetivos deste público (Martins et al., 2018). Um espaço de diálogo, reflexão e empoderamento da mulher, para assumir o controle sobre sua saúde, estabelecendo hábitos saudáveis e reivindicando seus direitos e o controle sobre os determinantes de sua saúde, de sua família e fortalecendo sua autonomia sobre o seu ser e seu viver (Durand; Heidemann, 2013). Não obstante, compreende-se que a combinação de vulnerabilidades, deficiências e o contexto rural acarreta dificuldades de comunicação, limitações na acessibilidade aos serviços e escassez de profissionais capacitados, o que ainda compromete a inclusão, como por exemplo pessoas com deficiência auditiva enfrentam diversas barreiras nos serviços públicos, sobretudo na área da saúde. Mesmo após quase três décadas da implantação do SUS, há indicadores que apontam a persistência e até o aumento das desigualdades no acesso a esses serviços, especialmente devido às barreiras linguísticas (Vieira et al., 2023). Sendo assim, torna-se imprescindível a adoção de estratégias como a utilização de Libras e reformulação de materiais de educação em saúde adaptados com uma postura ética e empática, que promova a autonomia e a inserção dessas pessoas no cuidado. No que se refere às áreas rurais, a enfermagem desempenha papel de grande relevância devido à falta de médicos e à longa distância dos centros de saúde. Assim, no exercício profissional dos enfermeiros incluem-se visitas domiciliares, orientação sobre autocuidado, campanhas de prevenção e acompanhamento de doenças crônicas. Limitações para deslocamento tornam-se uma importante questão tanto para as equipes chegarem aos territórios rurais quanto para a população rural acessar ações e serviços de saúde restritos à área urbana (Soares et al., 2020). As pesquisas destacam que a realidade rural exige soluções criativas e flexíveis, já que há limitações de recursos e dificuldades de deslocamento. É importante destacar os movimentos inventivos que marcam também o trabalho do agente comunitário de saúde da zona rural, profissional que representa uma personificação do acesso à saúde para as comunidades rurais e que dinamiza as lógicas de funcionamento do transporte e da Unidade Básica de Saúde (UBS), para potencializar o atendimento às necessidades da comunidade, servindo como ponte e linha de comunicação do usuário com os demais profissionais de saúde (Soares et al., 2020). Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: O estudo contribui para os ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), ao destacar a atuação da enfermagem na prevenção, promoção e cuidado integral em contextos de vulnerabilidade; para o ODS 5 (Igualdade de Gênero), ao abordar o enfrentamento da violência contra a mulher e a valorização da autonomia feminina; e para o ODS 10 (Redução das Desigualdades), ao propor estratégias de inclusão de pessoas com deficiência. Também se relaciona ao ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis), ao evidenciar práticas criativas e adaptadas às realidades rurais, e ao ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes), ao reforçar a importância da integração da enfermagem com redes de apoio intersetoriais. Considerações finais: A revisão evidenciou que a enfermagem possui papel essencial na promoção da saúde e no enfrentamento das vulnerabilidades, atuando de forma próxima à população e adaptando suas práticas a diferentes contextos. Em casos de violência, a escuta e a notificação são fundamentais; no cuidado junto às pessoas com deficiência, a inclusão e a comunicação acessível são prioridades; e no cenário rural, a criatividade e a valorização dos saberes locais se tornam ferramentas indispensáveis. Apesar dos avanços, os estudos também mostram fragilidades que precisam ser superadas, tais como: formação insuficiente, ausência de protocolos padronizados, dificuldades estruturais e implementação de políticas públicas efetivas, flexíveis, integradas e adaptadas ao contexto rural. Investir em educação permanente e valorização da enfermagem é essencial para que o cuidado seja realmente integral e equitativo. Assim, a prática da enfermagem não só reduz desigualdades em saúde, mas também fortalece o SUS ao garantir acesso, acolhimento e inclusão para grupos em situação de vulnerabilidade.
