LIMITAÇÕES DA BARREIRA LINGUÍSTICA NO PRÉ-NATAL DE MULHERES IMIGRANTES NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE

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Resumo

Introdução: o município de Chapecó, localizado no oeste do estado de Santa Catarina, caracteriza-se como um pólo significativo de imigração, recebendo populações de diferentes nacionalidades, em especial haitianas, venezuelanas e senegalesas. Esse contexto de diversidade cultural e linguística impõe desafios para a organização dos serviços de saúde, especialmente na Atenção Primária à Saúde (APS), que se constitui como o principal espaço de acolhimento, cuidado e acompanhamento da população, sobretudo das mulheres em situação de vulnerabilidade social. A comunicação efetiva é um elemento central no processo do cuidado em saúde, pois permite a construção do vínculo, a escuta qualificada e a compreensão das necessidades individuais do usuário, sendo fundamental para o planejamento e a execução de ações de promoção, prevenção, diagnóstico e tratamento. No caso das mulheres imigrantes, a dificuldade de compreensão e de fala da língua portuguesa representa um obstáculo significativo para a realização de consultas pré-natais, nos casos de orientações sobre o aleitamento materno, no planejamento sexual e reprodutivo, bem como no entendimento sobre a importância de exames preventivos, como a realização do exame clínico das mamas, da coleta do exame citopatológico, das vacinas e da avaliação de sinais de alerta durante a gestação (Arruda-Barbosa; Sales; Souza, 2020; Granada, 2017). Além disso, os profissionais de saúde, frequentemente, se deparam com barreiras culturais que influenciam a percepção das usuárias sobre os serviços, protocolos e recomendações, tornando o cuidado mais complexo. Nesse contexto, esse trabalho visa responder “Quais são as principais dificuldades enfrentadas no atendimento às mulheres imigrantes na APS, considerando os aspectos relacionados à comunicação, ao idioma e à diversidade cultural, e de que maneira essas vivências contribuem para a formação acadêmica em Enfermagem? Objetivo: descrever as experiências de atendimentos a mulheres imigrantes no período pré-natal, na APS, destacando as limitações relacionadas à barreira linguística, às dificuldades de comunicação e aos choques culturais que influenciam o cuidado à saúde da mulher. Ainda, pretende-se refletir sobre como essas vivências favorecem a formação integral do futuro profissional de Enfermagem, estimulando habilidades de sensibilidade, empatia, escuta qualificada e adaptação de estratégias comunicacionais. Metodologia: trata-se de um relato de experiência de duas estudantes sobre as vivências durante atividades teórico-práticas (ATPs) realizadas no decorrer do desenvolvimento do componente curricular (CCR) “O Cuidado no Processo de Viver Humano II”, ofertado no curso de graduação em Enfermagem da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Neste CCR são aprofundados conteúdos relacionados à saúde da mulher, obstetrícia, saúde da criança e família e as ATPs acontecem na rede hospitalar, em um serviço de saúde especializado no atendimento a mulheres e em unidades da APS do município de Chapecó, Santa Catarina, Brasil. O relato em questão envolve ATPs que aconteceram no primeiro semestre de 2025, em uma Estratégia de Saúde da Família (ESF) que presta atendimentos ao público feminino, nos seus diferentes ciclos de vida. Durante as atividades foram realizadas consultas de Enfermagem a mulheres imigrantes no período pré-natal. A experiência envolveu a observação participante e a prática supervisionada por uma docente do CCR, especialista em Enfermagem Obstétrica. Foram priorizadas práticas de promoção da saúde, prevenção de agravos e fortalecimento do vínculo entre o serviço e a comunidade. Para a elaboração e apresentação dos resultados deste relato, as vivências foram organizadas de forma descritiva e reflexiva, buscando articular a prática com referenciais teóricos da APS e da formação em Enfermagem. Resultados e discussão: os atendimentos realizados às mulheres imigrantes ocorreu por meio de consultas de Enfermagem no período pré-natal, incluindo o acolhimento da gestante e do seu companheiro, o preenchimento da caderneta da gestante, a realização de testes rápidos para hepatites B e C, sífilis e HIV, a solicitação de exames de acordo com o trimestre gestacional, encaminhamentos necessários a cada caso (odontologista, nutricionista, pré-natal de alto risco, entre outros) e orientações peculiares a cada trimestre de gestação, bem como informações sobre os sinais de alerta e prazo de retorno para a próxima consulta. As experiências evidenciaram que a principal dificuldade enfrentada no atendimento às mulheres imigrantes envolveu a barreira linguística que limitou, significativamente, a obtenção de dados para o histórico de saúde e a anamnese completa da gestante, bem como a compreensão das próximas etapas do seguimento pré-natal e dos cuidados necessários para o bom andamento da gravidez de forma a garantir desfechos positivos para o binômio mãe-bebê. Nesse contexto, estudos nacionais reforçaram que a barreira linguística é um dos fatores centrais que comprometem a adesão às consultas e a privacidade das mulheres, ampliando as vulnerabilidades em saúde (Delamuta et al., 2020; Brandt; Areosa; Rodrigues, 2022). Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: as vivências relatadas contribuem diretamente para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 3 - Saúde e Bem-Estar, ao reforçar a importância da atenção integral à saúde da mulher, por meio do acompanhamento pré-natal, favorecendo a prevenção de agravos e a redução da mortalidade materna e feminina. Os achados também dialogam com o ODS 4 - Educação de Qualidade, ao evidenciarem a relevância das práticas formativas no decorrer das ATPs para a consolidação de competências profissionais, ampliando a capacidade crítica e reflexiva de futuros enfermeiros. Dessa forma, o trabalho demonstra como práticas realizadas no âmbito da APS podem contribuir para a consolidação de metas globais de saúde, equidade e qualidade da formação profissional. Considerações finais: a experiência prática evidenciou a necessidade de maior investimento em políticas públicas que fortaleçam o acolhimento linguístico e cultural nos serviços de saúde. O contato direto com mulheres imigrantes evidenciou que durante as atividades de aprendizagem prática, além do conhecimento técnico-científico, a atuação profissional exige dos profissionais atuantes e, também, dos estudantes, sensibilidade, empatia e busca por estratégias que minimizem barreiras de comunicação e choques culturais. Vivenciar de perto situações em que a linguagem se torna um obstáculo para a compreensão das orientações de saúde foi fundamental para perceber que o papel do enfermeiro extrapola o atendimento clínico e envolve, também, mediação, escuta qualificada e criatividade na adaptação comunicacional. Essa vivência proporcionou às acadêmicas valorosas reflexões acerca da importância de recursos visuais, linguagem simplificada e valorização do apoio de tradutores e mediadores culturais no contexto do atendimento à população imigrante.

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Publicado

16-01-2026