LETRAMENTO DIGITAL EM SAÚDE DOS PROFISSIONAIS DA APS: DIFICULDADES E POTENCIALIDADES NA COLETA DE DADOS
Resumo
Introdução: O letramento em saúde é considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) um importante determinante social que constitui um conjunto de habilidades, motivações e conhecimentos que capacitam o indivíduo a buscar, interpretar, avaliar e utilizar informações para o processo de decisão em saúde (Mialhe et al,. 2021). Na atualidade, marcada pela intensa disseminação de informações digitais, o letramento em saúde adquire maior relevância, visto que a capacidade de acessar, compreender e avaliar os dados disponíveis online é essencial para a autonomia e a promoção do bem-estar de todos. Nesse contexto, a pesquisa científica configura-se como instrumento fundamental para analisar a problemática do letramento digital em saúde, sendo que obter dados consistentes e de qualidade demanda um processo metodológico rigoroso e cuidadosamente estruturado. A entrevista, por exemplo, é um procedimento amplamente empregado na investigação social, tanto para a coleta de dados quanto para auxiliar no diagnóstico ou tratamento de problemas de natureza social (Lakatos, 2003). Portanto, o presente relato de experiência visa compartilhar as práticas, desafios e aprendizagens dos acadêmicos enquanto entrevistadores, evidenciando como essa vivência contribui para o desenvolvimento de competências em letramento digital em saúde, reflexões críticas sobre a coleta de dados e o fortalecimento da atuação profissional na área da saúde. Objetivo: Relatar a experiência vivenciada pelos acadêmicos durante a coleta de dados do Estudo Nacional sobre Inclusão e Letramento Digital dos Profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS), evidenciando as dificuldades, potencialidades e contribuições para o desenvolvimento de competências em letramento digital em saúde. Metodologia: Trata-se do relato da experiência vivenciada na coleta de dados do Projeto Inclusão e Letramento Digital dos Profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS). O estudo adota abordagem de métodos mistos, desenvolvido em etapas quantitativa e qualitativa. Neste recorte, apresenta-se a experiência da equipe de entrevistadores durante a etapa de coleta de dados realizada no estado do Paraná, especificamente nos municípios de Francisco Beltrão e Vitorino, entre fevereiro e agosto de 2025. A coleta contemplou profissionais atuantes em Unidades Básicas de Saúde estruturadas segundo a Estratégia Saúde da Família (ESF). A seleção dos municípios considerou a diversidade territorial (urbano/rural), o porte populacional e critérios de equidade definidos pelo Índice de Equidade e Dimensionamento (IED), assegurando representatividade regional. Os dados foram obtidos por meio de entrevistas presenciais e online, realizadas via plataforma Google Meet, além da aplicação de questionários digitais na plataforma REDCap, que também operacionalizou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Cada entrevistador recebeu um código de acesso individual para registrar as informações de forma segura, em modalidades online e offline. O instrumento central de coleta foi a versão brasileira do eHealth Literacy Scale (eHEALS-Br), complementado por questões sociodemográficas e relacionadas ao acesso a dispositivos digitais, conectividade, habilidades operacionais, informacionais e comunicacionais, além de aspectos como confiança em fontes, segurança de dados e uso de aplicativos e plataformas de teleatendimento. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade de Brasília (Parecer nº 7.361.118) e segue as normas éticas vigentes. Resultados e discussão: A participação dos acadêmicos como entrevistadores possibilitou uma vivência enriquecedora, que ultrapassou os aspectos técnicos da coleta de dados e incluiu aprendizagens relacionadas à ética em pesquisa, à adequação da linguagem na abordagem com os profissionais e à importância do acolhimento durante as entrevistas. Essa experiência também reforçou a necessidade de rigor metodológico para garantir a consistência e a qualidade das informações obtidas. No decorrer da coleta, alguns desafios se evidenciaram, como a indisponibilidade de tempo dos profissionais da APS, que resultou em frequentes reagendamentos, além de dificuldades tecnológicas enfrentadas durante as entrevistas online. Esses obstáculos demandaram dos entrevistadores habilidades de flexibilidade, organização logística e manejo de imprevistos. Por outro lado, a experiência revelou potencialidades significativas. As entrevistas online mostraram-se eficazes para ampliar o alcance aos profissionais, permitindo a inclusão de profissionais de diferentes regiões do Paraná, o que seria inviável apenas de forma presencial. Já as entrevistas presenciais, realizadas nos municípios de Francisco Beltrão e Vitorino, favoreceram maior proximidade com os participantes, o que contribuiu para a qualidade e profundidade dos dados coletados. No contato com os profissionais da APS, observou-se que, embora reconheçam a relevância da tecnologia para qualificar o atendimento, muitos relatam insegurança e a ausência de capacitação formal para utilização adequada das ferramentas digitais. Esse achado evidencia a necessidade de investimentos em processos formativos que fortaleçam o letramento digital em saúde. De modo geral, a coleta de dados, ainda em andamento, tem apontado tanto os desafios quanto às potencialidades da metodologia empregada, além de gerar evidências que podem subsidiar a formulação de políticas públicas mais assertivas, voltadas à qualificação dos profissionais e à melhoria do cuidado prestado à população. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: O estudo apresenta contribuições relevantes para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. No que se refere ao ODS 3 (Saúde e Bem-estar), a pesquisa aborda a qualificação do cuidado em saúde a partir da inclusão digital, destacando como o fortalecimento do letramento digital pode impactar diretamente a qualidade dos serviços ofertados à população. Em relação ao ODS 9 (Indústria, Inovação e Infraestrutura), o estudo evidencia a necessidade de incorporar inovações tecnológicas à prática da APS de maneira planejada e contextualizada, ressaltando que a infraestrutura tecnológica deve vir acompanhada de processos de capacitação e suporte. Já no âmbito do ODS 17 (Parcerias e Meios de Implementação), a experiência relatada demonstra a relevância da articulação entre instituições acadêmicas, gestores públicos e serviços de saúde, reforçando a importância das parcerias para viabilizar pesquisas que possam subsidiar políticas públicas e estratégias de transformação digital no sistema de saúde brasileiro. Considerações finais: A experiência relatada evidencia que a coleta de dados em pesquisas multicêntricas, especialmente no campo da saúde digital, envolve tanto desafios quanto potencialidades. Entre as principais limitações observadas destacam-se a indisponibilidade de tempo e o não retorno de alguns profissionais da APS, fatores que impactaram diretamente o processo de agendamento e execução das entrevistas. Além disso, embora reconheçam a relevância das tecnologias digitais para o cuidado em saúde, muitos participantes manifestaram insegurança em seu uso, o que aponta para a necessidade de investimentos em processos de capacitação. Por outro lado, a adoção de entrevistas online mostrou-se estratégica para ampliar o alcance geográfico da pesquisa, possibilitando a inclusão de profissionais de diferentes regiões do estado. Já a coleta presencial, realizada em Francisco Beltrão e Vitorino, contribuiu para a aproximação entre entrevistadores e participantes, favorecendo a construção de vínculos e a qualidade dos dados obtidos. Do ponto de vista formativo, a vivência como entrevistadores proporcionou aos acadêmicos o desenvolvimento de habilidades de comunicação, gestão do tempo e adaptação a diferentes contextos, além de promover reflexões sobre ética em pesquisa e acolhimento dos participantes. Assim, reafirma-se que a experiência prática em campo vai além da aplicação de instrumentos de coleta, permitindo compreender as complexidades do cotidiano dos profissionais da APS e reconhecendo a dimensão humana que sustenta a produção científica. Em síntese, este relato de experiência demonstra que a pesquisa em saúde digital requer planejamento metodológico rigoroso aliado à flexibilidade diante das realidades locais, contribuindo não apenas para a formação acadêmica, mas também para a geração de evidências capazes de orientar políticas públicas mais sensíveis e aplicáveis às necessidades da APS.
