PROTAGONISMO DA ENFERMAGEM: REFLEXÕES PARA SUPERAÇÃO DE ESTEREÓTIPOS E AMPLIAÇÃO DE HORIZONTES
Resumo
Introdução: a Enfermagem, ao longo de sua história, foi marcada por uma visão idealizada e padronizada, geralmente associada a uma prática subordinada, técnica e restrita ao ambiente hospitalar e sob a supervisão de outros profissionais. No entanto, o contexto contemporâneo evidencia a necessidade de reconhecer a amplitude de competências do enfermeiro, que incluem assistência direta, gestão, pesquisa, educação, empreendedorismo e práticas integrativas. Essa ampliação das competências evidencia um protagonismo que rompe paradigmas históricos e reforça a identidade profissional de maneira consistente e multifacetada (Benetti et al., 2020). Além disso, estudos internacionais demonstram que a valorização do papel do enfermeiro em diferentes contextos, como Reino Unido e Estados Unidos, contribui para maior autonomia profissional, reconhecimento social e integração intersetorial, reforçando que o protagonismo da Enfermagem é um fenômeno global, não restrito a contextos específicos. Dessa forma, refletir criticamente sobre essas mudanças torna-se essencial para identificar lacunas, superar estereótipos e propor estratégias que ampliem horizontes de atuação e fortalecimento da profissão. Objetivo: analisar, a partir de reflexões acadêmicas, como a Enfermagem vem superando estereótipos, mesmo diante de limitações institucionais e culturais, e discutir essa realidade em comparação com o cenário da profissão em países como Reino Unido e Estados Unidos, contribuindo para a compreensão de potencialidades e desafios do protagonismo profissional. Metodologia: trata-se de um relato de experiência com abordagem qualitativa e descritiva, fundamentado em processos reflexivos derivados de vivências acadêmicas. A coleta de dados foi realizada por meio de experiências pessoais durante a participação no evento “InPulse”, realizado em 2025, que uniu saúde, tecnologia e inovação. O evento conectou profissionais e estudantes da saúde com especialistas de referências no setor, possibilitando participação em palestras inspiradoras, networking e atividades reflexivas. Entre os destaques, estiveram palestras sobre: o impacto social da inovação em saúde (Rodrigo Holl, CEO da DotSE), o uso de painéis de monitoramento de dados epidemiológicos e Business Intelligence (BI) (Dra. Enf. Yaná Tomasi), e o papel da ciência de dados, Big Data e inteligência artificial na saúde (Andreik Schneider). Essas vivências foram registradas por meio de anotações reflexivas e posteriormente analisadas criticamente, articulando prática, inovação tecnológica e identidade profissional em Enfermagem. Resultados e discussão: A partir das vivências acadêmicas e reflexões realizadas no InPulse, foi possível perceber que a Enfermagem brasileira vem, gradualmente, rompendo estereótipos e conquistando novos espaços de atuação, especialmente em inovações tecnológicas que ampliam o cuidado além do hospitalar. Entretanto, quando se compara a realidade brasileira com a de outros países, emergem contrastes significativos, embora o evento tenha ilustrado um potencial alinhado a avanços globais. No Reino Unido, os enfermeiros possuem maior autonomia clínica, sendo reconhecidos como "nurse practitioners",com autonomia para atuar de forma independente em diversos serviços de saúde (King, 2017). Esses profissionais têm a possibilidade de prescrever medicamentos, conduzir consultas especializadas e liderar equipes multidisciplinares, o que reforça seu protagonismo no sistema de saúde algo que ecoa as interações multiprofissionais vivenciadas no InPulse, mas com maior independência prática (Timmons & Evans, 2023). Nos Estados Unidos, a atuação da Enfermagem destaca-se pela valorização das especializações avançadas: enfermeiros com formação de mestrado e doutorado (APNs) têm autonomia clínica significativa e estão capacitados não só para o cuidado direto, mas também para influenciar e formular políticas de saúde, com acesso a programas de prática avançada
que ampliam sua autonomia e reconhecimento (Kostas-Polston et al., 2015; Heinen et al., 2019). A análise crítica permitiu evidenciar que avanços semelhantes, embora mais tímidos, também podem ser observados no Brasil, como na atenção primária à saúde, onde o enfermeiro pode assumir funções de liderança em equipes multiprofissionais, coordenar o cuidado integral, propor estratégias de promoção da saúde e participar ativamente de políticas públicas potenciais reforçados pelas simulações de BI e IA no evento. No entanto, apesar disso, persistem barreiras culturais e institucionais que limitam a autonomia profissional. Neste contexto nacional, o reconhecimento social permanece, muitas vezes, atrelado a estereótipos de subordinação, o que gera desafios para o pleno protagonismo da Enfermagem, como notado na hesitação inicial de alguns participantes ao discutirem papéis tech-líderes. A comparação internacional evidencia que o fortalecimento do protagonismo da Enfermagem depende de políticas de valorização, investimentos em formação continuada e mudanças estruturais que permitam ao enfermeiro ampliar seu espaço de atuação, com maior autonomia e reconhecimento social Nesse cenário, a Enfermagem pode ser protagonista ao assumir posições estratégicas de gestão e liderar projetos comunitários. Além disso, pode desenvolver práticas inovadoras que rompam estereótipos e expandem horizontes de atuação profissional. Esse movimento se alinha às reflexões despertadas pelo InPulse sobre tecnologia e impacto social. Nessa perspectiva, o evento, organizado pela turma de Enfermagem e Prof. Dra Julyane Felipette no CCR de Empreendedorismo, Inovação e Tecnologia na Enfermagem superou a expectativa inicial de ser apenas "mais uma palestra". A experiência revelou a ampla presença da Enfermagem em contextos tecnológicos, ressaltando que a inovação não substitui, mas complementa o cuidado humano. O impacto social da inovação em saúde, abordado por Rodrigo Holl, CEO da DotSE, demonstrou o potencial da tecnologia como ferramenta de equidade. Exemplos como a telemedicina em comunidades rurais ilustram como barreiras geográficas são quebradas, melhorando a qualidade de vida. A automação foi vista como um meio de liberar o profissional para um foco mais humano no paciente. Em seguida, a Dra. Enf. Yaná Tomasi detalhou o uso de Painéis de Monitoramento de Dados Epidemiológicos e Business Intelligence (BI). Essa aplicação transformou relatórios estáticos em visualizações dinâmicas, permitindo que gestores identificassem surtos (como a dengue) e otimizassem a alocação de recursos em tempo real, elevando a eficiência da saúde pública. Por fim, Andreik Schneider destacou o papel da Ciência de Dados, Big Data e IA. O Big Data foi apresentado como o alicerce fundamental; a Ciência de Dados, como ferramenta de extração de padrões e modelos preditivos; e a IA, como o ápice que fornece diagnósticos precisos e impulsiona a medicina de precisão. A conclusão do evento foi clara:
a Enfermagem é uma profissão em expansão contínua e inovadora, capaz de dialogar com a tecnologia sem perder sua essência no cuidado ao ser humano. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: ao destacar a ampliação do protagonismo da Enfermagem e a valorização da formação contínua, este trabalho se alinha e contribui para o ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), ao propor um cuidado mais qualificado e centrado nas reais necessidades da população. Relaciona-se também ao ODS 4 (Educação de Qualidade), ao evidenciar o papel da educação inovadora e crítica na formação profissional. Da mesma forma, contribui com o ODS 10 (Redução das Desigualdades), ao incentivar a superação de estereótipos e ampliar o acesso a oportunidades de atuação mais justa e equilibrada dentro da profissão. Assim, o estudo fortalece uma Enfermagem mais valorizada, preparada e presente em diferentes dimensões do cuidado. Considerações finais: o protagonismo da Enfermagem configura-se como uma realidade concreta que desafia a visão idealizada e limitada historicamente atribuída à profissão, reafirmando a amplitude, a diversidade e o potencial transformador do cuidado em saúde. A comparação com países como Reino Unido e Estados Unidos evidencia que, embora a Enfermagem brasileira tenha conquistado avanços significativos, ainda persistem barreiras culturais e institucionais que limitam níveis mais elevados de autonomia profissional e reconhecimento social. Dessa forma, é fundamental o desenvolvimento de políticas de valorização profissional, a ampliação da formação continuada e o fortalecimento do reconhecimento social, a fim de consolidar esse protagonismo da Enfermagem em diferentes cenários de prática. Ainda, é necessário fomentar pesquisas, discussões e iniciativas educativas que aprofundem estratégias para desconstruir estereótipos e ampliar o campo de atuação da profissão, garantindo que os enfermeiros ocupem posições estratégicas na gestão, na liderança comunitária, na formulação de políticas públicas e na implementação de práticas inovadoras e integrais em saúde.
