DRONE COMO FERRAMENTA ESTRATÉGICA PARA SUPERAR LIMITAÇÕES NO COMBATE AO Aedes aegypti
Resumo
Introdução: O Aedes aegypti (Diptera: Culicidae) (Linnaeus, 1762) é um vetor capaz de transmitir diversas arboviroses de relevância global que vem se tornando altamente adaptado ao ambiente antropizado proporcionado pelo desenvolvimento desenfreado e desigual das populações humanas. Dentre estas, a dengue se destaca como uma das principais arboviroses de impacto para a saúde pública na América Latina. O Brasil, caracterizado por sua extensão continental e heterogeneidade socioambiental, constitui um território amplo e especialmente suscetível a proliferação do vetor que vem se adaptando com sucesso notório a áreas antropizadas. O país tem registrado grandes epidemias, especialmente após o ano de 2020, seguindo uma tendência global, na qual, a dengue tem se consolidado como um problema de saúde pública emergente e em rápida expansão, com mais de 100 países tendo-a como uma doença endêmica, expondo mais de 2.5 bilhões de pessoas ao risco de infecção (Lessa et al., 2023). A capacidade adaptativa do vetor aliada a grande disposição de reservatórios que podem emergir como criadouros, especialmente em regiões subdesenvolvidas, evidencia a necessidade de validar diferentes tecnologias que permitam um monitoramento amplo para detecção precoce de locais e objetos que podem vir a se tornar criadouros, contribuindo para o controle vetorial e consequentemente, para redução de casos e taxa de mortalidade associada as arboviroses urbanas (Facchinelli; Badolo; McCall, 2023). Objetivo: Demonstrar a aplicabilidade e eficiência do uso de Veículos Aéreos Não Tripulados (VANTs) como ferramenta estratégica no monitoramento e mapeamento de criadouros de Aedes aegypti em Cunhataí (SC) para subsídio de ações de controle vetorial. Metodologia: Estudo de carácter descritivo-comparativo, realizado na área urbana de Cunhataí, oeste do Estado de Santa Catarina. A intervenção consistiu em sobrevoos com VANT ocorreram bimestralmente, com início em 2024, para inspeção visual de criadouros de difícil acesso, com capturas de imagens de todo o território para uma conferência adicional por um agente. Avaliou-se o número absoluto recipientes positivos para Aedes aegypti de cada categoria (A1, A2, B, C, D1, D2 e E) e o número absoluto de focos encontrados em Pontos Estratégicos (PE) e no Levantamento de Indice Amostral (LIA), comparando-se os dados das Semanas Epidemiológicas 1-34 do período de pré-implementação (2021-2023) e pós-implementação (2024-2025). Os dados foram obtidos do sistema Vigilantos, da Diretoria de Vigilância Epidemiológica do Estado de Santa Catarina e da Secretaria de Saúde e Saneamento de Cunhataí. Resultados e discussão: No período pré-implementação, o número de focos de Aedes aegypti identificados nas Semanas Epidemiológicas 1-34 foi de 40 focos. Após o início do monitoramento bimestral com VANTs em 2024, o número de focos registrados no mesmo período caiu para 24, representando uma redução de 40%. A redução de focos encontrados em Pontos Estratégicos foi ainda mais notável, com uma redução de 75% de 2024 para 2025 e 80% de 2023 para 2025. Os sobrevoos permitiram identificar criadouros em locais elevados, como calhas e caixas d'água, que eram subnotificados nas vistorias tradicionais. A composição dos tipos de depósitos positivos encontrados durante o LIA também sofreu alterações, com uma redução clara de grandes depósitos e de difícil acesso (Grupos A1, A2, C), mantendo-se depósitos menores que normalmente se mantem a nível do solo, como potes e baldes (Grupos B, D1 e D2). Discute-se que essa redução expressiva se deve à otimização das ações de controle: a tecnologia permitiu a elaboração de planos de trabalho direcionados, com eliminação e tratamento de depósitos em um tempo mais curto, reduzindo drasticamente os locais para oviposição e, consequentemente, a infestação do vetor no território (Carrasco-Escobar et al., 2022). O monitoramento bimestral permitiu a localização eficiente de pontos que demandam maior atenção e necessidade de intervenção, permitindo a elaboração de planos de trabalho adaptados as necessidades do território, com a eliminação e tratamento dos depósitos de forma simultânea em um curto período. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: Este trabalho contribui diretamente para o alcance do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 3: Saúde e Bem-Estar, especificamente a meta 3.3, que visa acabar com epidemias de arboviroses transmissíveis pelo Aedes aegypti até 2030. Ao validar o uso de drones como uma ferramenta de alta eficácia para a localização e controle de focos do vetor, a pesquisa fortalece a vigilância em saúde e otimiza as ações de prevenção, sendo um passo fundamental para a redução da incidência da dengue. Adicionalmente, a iniciativa dialoga com o ODS 11 (meta 11.5), ao aumentar a resiliência da comunidade urbana contra desastres biológicos, como surtos ou epidemias, promovendo um ambiente mais seguro e saudável para todos. Considerações finais: Os resultados deste estudo demonstram de forma inequívoca que a implementação do monitoramento com VANTs representou um avanço significativo para as ações de controle vetorial. A capacidade de inspecionar sistematicamente criadouros de difícil acesso, como lajes e calhas, não apenas resultou em uma redução quantitativa expressiva dos focos do Aedes aegypti, mas também alterou qualitativamente o perfil dos depósitos encontrados. A experiência valida o drone não como um substituto, mas como um poderoso complemento às equipes de campo, permitindo que os planos de trabalho sejam mais ágeis e direcionados. Recomenda-se, portanto, a incorporação de tecnologias de sensoriamento remoto nas políticas de vigilância entomológica, especialmente em cenários urbanos complexos. Pesquisas futuras poderiam explorar a integração de inteligência artificial para análise automática de imagens e estudos de custo-efetividade para subsidiar a expansão dessa estratégia.
