MULTI, INTER E TRANSDISCIPLINARIDADE NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: UM OLHAR SOB A ÓTICA DA BIOÉTICA DE INTERVENÇÃO

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Resumo

Introdução: A Bioética de Intervenção (BI) está ligada diretamente aos países periféricos, sendo compreendida como uma ferramenta que pode intervir em diversos problemas morais de forma prática. Conflitos bioéticos no trabalho em saúde frequentemente decorrem da pluralidade de saberes e do desequilíbrio de poder, manifestados na materialidade corporal e na dignidade humana. Para equilibrar essas relações a BI tem seu discurso estruturado na multidisciplinaridade, na interdisciplinaridade e na transdisciplinaridade, e dessa forma articula uma heterogeneidade de conhecimentos para abordar a complexidade inerente à noção de vida (Melo; Amorin, 2022).  Os conceitos de multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade representam diferentes níveis de articulação entre saberes no campo científico. A multidisciplinaridade refere-se à abordagem simultânea de um objeto por diversas áreas do conhecimento, cada uma mantendo sua perspectiva metodológica e epistemológica própria. A interdisciplinaridade implica uma interação metodológica entre disciplinas, promovendo troca de saberes e construção conjunta de interpretações sobre um mesmo fenômeno. Já a transdisciplinaridade ultrapassa os limites disciplinares, propondo uma síntese integradora que visa à construção de um conhecimento unificado, mais holístico e contextualizado, capaz de abarcar a complexidade dos problemas analisados (Schwartzman et al., 2017). Sob a perspectiva da BI, torna-se possível analisar as relações de trabalho estabelecidas entre os profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS), com ênfase na forma como se operacionalizam os princípios da multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade nas práticas colaborativas e nos processos de tomada de decisão. Objetivo: analisar criticamente as relações de trabalho na APS à luz dos pressupostos da Bioética de Intervenção, com foco nas abordagens da multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade nas práticas colaborativas. Metodologia: resumo reflexivo baseado em uma revisão narrativa da literatura dos últimos 10 anos, cuja busca de materiais para análise foi realizada de 11 de agosto a 26 de agosto de 2025.A análise crítica foi realizada com base nas vivências concretas das autoras, vinculadas ao trabalho profissional na APS. Para a revisão narrativa foi utilizada a base de dados Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) com os descritores: Bioética de Intervenção; Atenção Primária à Saúde; Enfermagem; Multidisciplinaridade; Desenvolvimento sustentável. Trata-se de uma análise qualitativa sob a ótica da BI, promovida na disciplina de Fundamentos Epistemológicos e Bioéticos do Cuidado em Saúde e Enfermagem do Doutorado Profissional em Enfermagem da UDESC.A abordagem corresponde a revisão teórica seletiva com reflexões críticas sobre práticas vivenciadas, articulando conceitos como multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade no âmbito das relações de trabalho. Resultados e discussão: A APS desempenha papel estratégico na resposta às demandas prevalentes em saúde, por meio de ações integradas de promoção, prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação, abrangendo tanto o âmbito individual quanto o coletivo. Para que essas ações sejam efetivas e resolutivas, é imprescindível a articulação entre os profissionais envolvidos no cuidado (Levandovski; Pekelman, 2024). A composição das equipes da APS caracteriza-se pela diversidade de formações, incluindo médicos, enfermeiros, agentes comunitários de saúde, cirurgiões-dentistas, auxiliares de enfermagem, técnicos em saúde bucal e profissionais administrativos. Complementarmente, pode-se contar com o suporte de profissionais da equipe multidisciplinar, como farmacêuticos, psicólogos, educadores físicos, fisioterapeutas e assistentes sociais. Espera-se, essencialmente, que esses profissionais atuem de forma interdisciplinar, promovendo uma abordagem integral e colaborativa no cuidado à saúde. Contudo, a vivência prática revela-se, em diversos momentos, dissociada desse ideal. Em grande parte das situações, observa-se a adoção de condutas individualizadas, pautadas na perspectiva específica de cada profissão. O simples fato de diferentes profissionais, áreas do conhecimento ou disciplinas atuarem em conjunto não assegura necessariamente a geração de novo conhecimento, nem garante a troca efetiva de saberes entre os participantes, o que pode ameaçar princípios bioéticos, como da justiça, pluralidade, tolerância, responsabilidade e equidade,  fragilizando o tecido social do trabalho e contribuir para a descaracterização da APS (Valadão; Lins; Carvalho, 2017). Diversos fatores contribuem para a fragmentação do cuidado, entre eles o elevado número de usuários atendidos em tempo reduzido, o que compromete além do cuidado com o usuário, a interação entre os profissionais. Nesse contexto, emerge uma questão central: como assegurar um atendimento integral quando a alta demanda e a limitação de tempo dificultam a comunicação e a integração da equipe? Para a BI, essa indagação configura-se como um convite à ação: repensar estruturas, reivindicar espaços de diálogo e fortalecer vínculos interprofissionais como elementos essenciais de um cuidado ético e humanizado. Soma-se a esse desafio a persistente predominância de uma visão fragmentada do trabalho e do conhecimento, que limita a efetivação da Inter interdisciplinaridade (Levandoski; Pekelman, 2024). Essa limitação decorre da forma como as profissões foram historicamente concebidas e estruturadas, tanto no âmbito da formação acadêmica quanto na prática profissional, estruturadas nos saberes disciplinares. Os saberes são organizados em compartimentos isolados, com pouca interlocução entre si, o que favorece a manutenção de modelos de cuidado centrados em núcleos profissionais específicos, em detrimento de práticas colaborativas e integradas. Essa configuração compromete a efetividade das ações em saúde, sobretudo na APS, espaço em que a complexidade das demandas exige a articulação entre diferentes saberes, experiências e práticas. Sob a ótica da BI, essa problemática adquire contornos ético-políticos relevantes. A BI, ao emergir como uma proposta crítica oriunda dos países periféricos, propõe uma atuação prática diante de conflitos morais que decorrem, entre outros fatores, da diversidade de saberes e do desequilíbrio de poder nas relações de trabalho. A fragmentação do cuidado, portanto, não é apenas uma questão organizacional, mas também um reflexo das assimetrias epistemológicas e sociais que atravessam o campo da saúde. Os desafios identificados, a dificuldade de comunicação e integração entre os profissionais da APS diante da alta demanda e da escassez de tempo, evidenciam uma limitação estrutural que ultrapassa questões organizacionais. Trata-se de um problema ético, epistemológico e político. A fragmentação do cuidado reflete não apenas a sobrecarga dos serviços, mas também a persistência de modelos de formação e atuação profissional que compartimentalizam saberes e reforçam hierarquias. É nesse cenário que a transdisciplinaridade, articulada pela BI, se apresenta como uma alternativa potente. Ao propor uma síntese integradora entre os saberes, a transdisciplinaridade rompe com os limites disciplinares e promove uma abordagem mais holística, capaz de abarcar a complexidade das demandas em saúde. Mais do que somar conhecimentos, ela busca transcender as fronteiras epistemológicas, valorizando o diálogo entre diferentes perspectivas e reconhecendo o saber experiencial dos profissionais e usuários. A BI, ao se estruturar sobre essa lógica, convida à construção de práticas colaborativas que não apenas compartilham decisões, mas também reconhecem as interdependências entre os sujeitos envolvidos no cuidado. Assim, a transdisciplinaridade deixa de ser um ideal distante e passa a ser uma estratégia concreta de transformação, alinhada aos princípios da justiça, da equidade e da dignidade humana. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: a fragmentação do cuidado na APS, intensificada pela alta demanda de atendimentos e pela escassez de tempo para interação entre os profissionais, compromete a construção de práticas colaborativas e integradas. Essa realidade, longe de ser apenas um desafio organizacional, revela uma demanda ética que pode ser analisada sob a perspectiva da BI. Como proposta crítica e contra hegemônica, a BI busca enfrentar conflitos morais concretos por meio da articulação entre saberes diversos, promovendo a multidisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade como caminhos para um cuidado mais justo, ético e resolutivo. Ao propor práticas que valorizam o diálogo, a escuta e a construção coletiva, a BI contribui diretamente para o fortalecimento de sistemas de saúde mais equitativos e humanizados. Essa abordagem está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030, especialmente aqueles voltados à promoção da saúde e bem-estar (ODS 3), à educação de qualidade (ODS 4), à redução das desigualdades (ODS 10) e ao fortalecimento de instituições eficazes e inclusivas (ODS 16). Assim, a BI se apresenta como uma ferramenta potente para repensar as relações de trabalho na saúde e promover transformações que vão além do cuidado técnico, alcançando dimensões éticas, sociais e políticas. Considerações finais: A análise das relações de trabalho na APS sob a perspectiva da BI revela que os desafios enfrentados pelas equipes multiprofissionais vão muito além da organização dos serviços. A fragmentação do cuidado, a escassez de tempo para o diálogo interprofissional e a persistência de modelos disciplinares isolados evidenciam tensões éticas e epistemológicas que comprometem a integralidade do cuidado.  Diante do exposto, evidencia-se que a articulação entre a BI e a organização do trabalho na APS constitui um enfoque inovador e ainda pouco explorado na literatura científica. São raros os estudos que estabelecem essa conexão direta, o que reforça a originalidade e a relevância da presente análise. Ao propor essa aproximação, o estudo amplia os horizontes da BI, coerente a sua proposta de abordagem situada, crítica e transformadora, capaz de dialogar com os desafios concretos enfrentados pelas equipes multiprofissionais no cotidiano da APS. Nesse contexto, a BI se apresenta como potencial recurso analítico e propositivo para promover transformações concretas, ao articular saberes diversos e reivindicar práticas colaborativas pautadas na escuta, no respeito mútuo e na construção coletiva. Ao incorporar os princípios da multidisciplinaridade, da interdisciplinaridade e, sobretudo, da transdisciplinaridade, a BI propõe uma abordagem que transcende fronteiras disciplinares e valoriza a complexidade da vida humana em suas múltiplas dimensões. Essa perspectiva não apenas contribui para o fortalecimento de práticas éticas e humanizadas, mas também se alinha aos ODS, ao propor um cuidado que integra saúde, equidade, educação e justiça social. Assim, instigar os profissionais a repensar as relações de trabalho na APS à luz dos pressupostos da BI é um convite à ação transformadora, que reconhece a prática integral do cuidar, antes de tudo, um ato ético, político, de responsabilidade relacional e profundamente humano.

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Publicado

16-01-2026