DESAFIOS GLOBAIS EM SAÚDE: A CRISE CLIMÁTICA E AS POLÍTICAS PÚBLICAS

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Resumo

Introdução: emergências climáticas, como ondas de calor extremo, inundações, secas e tempestades, têm impactos significativos na saúde humana, agravando doenças respiratórias e cardiovasculares, aumentando a incidência de doenças transmitidas por vetores e comprometendo a segurança alimentar e hídrica. Além disso, desastres naturais podem causar lesões físicas, estresse psicológico e sobrecarga nos sistemas de saúde. Populações vulneráveis, como idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas, estão especialmente em risco, evidenciando a necessidade de políticas de adaptação e mitigação (Brasil, 2025). A saúde humana e a saúde planetária estão profundamente interligadas, uma verdade que se torna inegável diante da crise climática global. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, entre 2030 e 2050, as mudanças climáticas poderão causar 250 mil mortes adicionais por ano devido à desnutrição, malária, diarreia e estresse por calor, evidenciando a urgência de uma resposta global coordenada (OMS, 2018). Além disso, a crise climática aprofunda as desigualdades sociais existentes, impactando de forma desproporcional as populações mais vulneráveis, como as comunidades de baixa renda e os países em desenvolvimento, que possuem menos recursos para se adaptarem e se protegerem. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) salienta que a segurança alimentar e hídrica está sob ameaça crescente, o que compromete a nutrição e a saúde geral, especialmente em regiões já fragilizadas (IPCC, 2022). Neste contexto, destaca-se a relevância de políticas públicas como instrumentos essenciais para enfrentar os efeitos da crise climática e preparar os sistemas de saúde para um cenário de riscos múltiplos. A abordagem “Saúde Única” consolidada pelo Ministério da Saúde reforça essa perspectiva ao reconhecer que a saúde humana, animal e ambiental são indissociáveis, o que demanda estratégias intersetoriais e integradas para promover a resiliência e a sustentabilidade. Assim, a forma como governos e instituições respondem a esses desafios é determinante para a equidade e proteção da vida. Objetivo: analisar a relação entre as mudanças climáticas e a saúde global, investigando como as políticas públicas têm respondido a essa crise. Busca-se identificar lacunas nas estratégias de mitigação e adaptação, bem como explorar o potencial de políticas integradas e intersetoriais para fortalecer a resiliência dos sistemas de saúde e proteger as populações. Metodologia: adotou-se a revisão de escopo como metodologia, abordagem sistemática recomendada para mapear a extensão, o alcance e a natureza da produção científica sobre determinado tema. A busca foi realizada de forma abrangente em três bases de dados eletrônicas: Pubmed, Lilacs/BVS e ScienceDirect. A estratégia de busca foi elaborada com a combinação de descritores controlados e termos livres relacionados aos conceitos de “mudança climática”, “ política pública”, “doenças respiratórias”, “doenças cardiovasculares” e “poluentes atmosféricos”. Foram incluídos artigos publicados em todos os idiomas e com restrição de tempo de cinco anos, garantindo uma ampla cobertura da literatura disponível. A seleção dos estudos seguiu em duas etapas: 1. Leitura  de títulos e resumos para identificar a elegibilidade e 2. Leitura na íntegra dos estudos potencialmente elegíveis. Os critérios de inclusão abrangeram artigos que abordavam os impactos das mudanças climáticas, doenças relacionadas, grupos populacionais afetados e políticas adotadas para mitigação ou adaptação. Resultados e discussão: foram identificados 12 artigos que abordaram os impactos respiratórios e cardiovasculares das mudanças climáticas em diferentes contextos (Quadro 1 disponível no PDF). A maioria dos estudos são de abordagem qualitativa e foram desenvolvidos nos Estados Unidos da América (n=9; 75%) publicados entre 2020 e 2025. Os achados evidenciam que a exposição a eventos climáticos extremos e poluição atmosférica intensificada pelas mudanças climáticas contribui para o aumento de doenças respiratórias e cardiovasculares, além de indicar a necessidade de políticas públicas mais integradas para mitigação desses riscos. Os estudos analisados evidenciam que fatores socioeconômicos, políticos e estruturais contribuem para a poluição atmosférica, apontando-a como um dos principais determinantes dos impactos climáticos na saúde. Documentos da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2022) confirmam a associação direta entre a exposição a poluentes como material particulado, ozônio e dióxido de nitrogênio, e o desenvolvimento de doenças respiratórias, cardiovasculares e neurológicas. De modo complementar, ressalta que a exposição prolongada a esses contaminantes pode estar relacionada ao aumento da mortalidade por infecções respiratórias, como pneumonia. A sinergia entre a poluição atmosférica e o calor foi identificada como um fator de risco agravado. O estudo multicêntrico realizado em 620 cidades, demonstrou que a poluição intensifica os efeitos negativos do calor extremo sobre a mortalidade, fenômeno que tende a se intensificar em função do aumento da frequência desses eventos. Nesse sentido, reforça a necessidade de políticas públicas contínuas para mitigar os riscos combinados de calor e poluição. A análise também revelou desigualdades na vulnerabilidade, afetando de forma diferenciada, com maior exposição e agravamento as crianças, os idosos e as pessoas com doenças crônicas. Em contraponto, oferece uma perspectiva positiva, sugerindo que políticas de mitigação das mudanças climáticas podem trazer benefícios à saúde dos jovens, ampliando as perspectivas de prevenção. Alinhado a este entendimento, a indica que soluções baseadas na natureza, como a expansão de espaços verdes urbanos, podem melhorar a qualidade do ar e reduzir a carga de doenças associadas. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: este estudo se alinha diretamente com o ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), ao defender políticas que promovam a saúde em todas as idades. Ele também dialoga com o ODS 13 (Ação contra a Mudança Global do Clima) e o ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis), pois argumenta que a adaptação e a mitigação devem ser integradas ao planejamento urbano e à governança. Ao abordar a iniquidade social, o trabalho contribui para o ODS 10 (Redução das Desigualdades) e o ODS 1 (Erradicação da Pobreza), ao demonstrar que a saúde e a pobreza estão intimamente interligadas e que a crise climática aprofunda essas desigualdades. A pesquisa também sugere a necessidade de parcerias estratégicas (ODS 17) entre governos, sociedade civil, academia e setor privado para construir um futuro mais sustentável e equitativo. Considerações finais: A crise climática é um dos maiores desafios para a saúde pública, afetando globalmente e agravando as desigualdades sociais. Poluição, mudanças ambientais e eventos climáticos extremos têm um impacto direto na saúde e morte das pessoas, especialmente em grupos vulneráveis como crianças, idosos e comunidades de baixa renda. Essa desigualdade de vulnerabilidade exige políticas intersetoriais, integradas e focadas na saúde planetária e na abordagem "Saúde Única". É fundamental articular intervenções ambientais, urbanas e de saúde pública para diminuir os riscos e aumentar a resiliência dos sistemas de saúde. ​Estratégias como o investimento em energias renováveis, transporte sustentável, acesso a tecnologias limpas e o fortalecimento da vigilância em saúde são essenciais. Elas representam alternativas viáveis para reduzir os danos imediatos e futuros causados pelas mudanças climáticas.

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Publicado

16-01-2026