A DESINFORMAÇÃO E AS RELAÇÕES COM A SAÚDE: UMA REVISÃO NARRATIVA
Resumen
Introdução: ao longo da história da humanidade o acesso e a forma de compartilhamento de informações transformou-se radicalmente. A partir da terceira revolução industrial, ou revolução tecnológico-informacional, iniciada em meados da década de 1950 e que se estende até os tempos atuais, a globalização surge como um fenômeno que possibilitaria um maior fluxo de tecnologias, transportes, mercadorias, pessoas e informações por todo o mundo (Oliveira; Barroco, 2023). Com um acesso facilitado por meio do uso de dispositivos como computadores e celulares, a incorporação das redes sociais no cotidiano das pessoas resulta em repercussões significativas para o indivíduo e para a sociedade como um todo, dentre eles pode-se citar a “infodemia” (Giordani et al., 2021). Termo que caracteriza o excesso de informações circulantes, onde a velocidade e abrangência de informações disseminadas, torna difícil discernir quais são verdadeiras e quais são falsas, o que pode influenciar negativamente a tomada de decisão e linha de ação dos indivíduos. Esse processo foi ampliado durante a pandemia, quando as pessoas passaram a buscar informações na rede sobre o novo vírus, incluindo medidas sociais adotadas pelos governos, número de mortos, intervenções eficazes, opiniões das pessoas nas redes sociais, dentre outros assuntos (Giordani et al., 2021). Um exemplo de Fake news que permanecem como reflexo deste evento são notícias enganosas que afirmam que vacinas causam doenças ou que o aquecimento global não existe, o que acarreta um negacionismo científico que regride um trabalho construído gradualmente ao longo dos anos (Araújo, 2021). Neste contexto, as mídias sociais podem apresentar risco à saúde e ao bem estar, tendo em vista que ampliam a experiência de vulnerabilidade emocional, põe em risco a democracia e o direito à informação segura em saúde (Giordani et al., 2021). No que diz respeito a este tópico, é válido ressaltar dois termos repercutidos e debatidos constantemente pela mídia, governos e pesquisadores de diversas áreas do conhecimento: Fake news e desinformação. Enquanto as Fake news referem-se à falsificação de uma notícia, a qual pode ser intencional ou não, desinformação trata-se de um ambiente hostil à informação, geralmente, decorrente da disseminação de Fake news (Araújo, 2021). Objetivo: analisar a relação entre a desinformação, o acesso ao conhecimento por meio das mídias sociais e os impactos desse fenômeno na saúde individual e coletiva. Metodologia: trata-se de uma revisão narrativa, realizada nos meses de maio e junho de 2025 como atividade desenvolvida dentro do componente curricular “Fundamentos da Enfermagem em Saúde Coletiva”, disciplina obrigatória no mestrado acadêmico em Enfermagem da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Foi realizada uma busca livre nas bases e bancos de dados LILACS, Medline, SciELO e Scopus, de artigos que relacionassem os termos: desinformação, mídias sociais e saúde digital. Foram incluídos artigos nos idiomas português, inglês e espanhol, com limitação de tempo de publicação dos últimos 5 anos, que estivessem disponíveis gratuitamente na íntegra. Além das indicações de literatura da docente responsável pelo componente curricular, sendo um livro e 6 artigos científicos. A leitura dos resultados da busca realizada foi guiada sob a luz da seguinte pergunta de pesquisa: Qual a relação entre a desinformação, as mídias sociais e a saúde da população?. Resultados e discussão: a literatura evidencia quatro pontos-chave no que diz respeito à temática pesquisada, 1 - as Fake news como agentes transformadores da realidade, 2 – redes sociais como disseminadores de informações e potencializadores da propagação de Fake news, 3 - desinformação em saúde como barreira para a produção do conhecimento e 4 - estratégias de enfrentamento à desinformação. O termo Fake news, originalmente associado ao campo jornalístico e informativo, passou a assumir papel central nas disputas políticas contemporâneas, impulsionado pelo alcance das redes sociais. A circulação de notícias falsas tem se mostrado uma estratégia eficaz na manipulação da opinião pública e na disseminação de conteúdos que, muitas vezes, favorecem interesses particulares. Um exemplo marcante de desinformação na história do Brasil, foi durante a pandemia de COVID-19. Quando, devido a conflitos de opiniões pessoais entre o então presidente Jair Bolsonaro e os ministros da saúde (cargo ocupado por 4 pessoas diferentes no período), houve várias Fake news, especialmente sobre medidas como o isolamento social, uso de medicamentos sem eficácia comprovada e a vacinação, assim, apesar dos esforços de órgãos de autoridade sanitária como o Ministério da Saúde, a comunicação com o cidadão ficou fragilizada e as medidas de prevenção não foram amplamente adotadas. Essas divergências comprometeram a coerência das orientações oficiais e favoreceram a disseminação de desinformação (Pinto; Carvalho, 2023). O fenômeno conhecido como Fake news se refere não apenas à produção, mas também à ampla disseminação de informações falsas, que podem ter o objetivo de distorcer fatos, atrair audiência, enganar, desinformar, induzir ao erro, manipular a opinião pública ou favorecer/desprestigiar indivíduos e instituições, frequentemente motivadas por interesses econômicos ou políticos. Apesar de contribuírem para a democratização da produção e disseminação de informações, as plataformas digitais também potencializam a propagação de Fake news, visto que conteúdos não mediados por especialistas são facilmente assimilados sem verificação quanto à sua veracidade. Isso intensifica a insegurança da população em relação às orientações das autoridades sanitárias. A desinformação no âmbito sanitário afeta o direito à saúde e à liberdade de expressão e informação, assegurados na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. Ainda que, todo o cidadão tem o direito de procurar, receber e compartilhar informações e ideias sobre o tema, como processo de comunicação entre dimensões humanas e técnicas, participação política e vivência em sociedade (Pinto; Carvalho, 2023). Há também um novo termo que define o período das influências da desinformação: a “Pós-verdade”, trata-se de que os fatos e questões objetivas, não tem a mesma importância que as emoções e crenças pessoais. Na pós-verdade os dados científicos são ignorados e questionados, onde as pessoas levam em consideração seu lado subjetivo, o que elas acreditam ser verdadeiro não é questionável, favorecendo assim a disseminação da desinformação, e até a manipulação dessas pessoas em escolhas políticas, sociais e de saúde (Giordani et al., 2021; Araújo, 2021). Assim, nota-se que a desinformação é um fenômeno complexo que precisa de abordagens e esforços em diferentes áreas, sendo elas nas esferas executivas, legislativas e judiciárias, assim como, por parte das plataformas de redes sociais, veículos de comunicação e sociedade civil. Importante que as pessoas sejam capacitadas a identificar notícias falsas, e que as plataformas digitais possuam maior controle, através de regulação para se reduzir a circulação de notícias manipuladas. Assim, a parceria entre os profissionais de saúde e educadores caracteriza uma potência a ser explorada, uma vez que os profissionais de saúde são aqueles que detêm o conhecimento técnico e científico necessários para verificar a veracidade da informação e produzir conteúdos confiáveis. Enquanto os educadores têm as habilidades pedagógicas que promovem a compreensão e capacitam as pessoas a avaliar o conteúdo com autonomia crítica (Mendonça; Sousa, 2025). O cenário global digitalizado traz desafios que não impactam apenas a qualidade da informação, mas também influenciam diretamente as políticas de saúde e a confiança da população nas instituições (Mendonça; Sousa, 2025). Em sua pesquisa, Pinto e Carvalho (2023) identificaram uma diversidade de estratégias voltadas ao enfrentamento da desinformação, com destaque para o papel desempenhado por atores sociais vinculados ao Estado, especialmente as universidades públicas e demais instituições de pesquisa, que contribuem para a produção de conhecimento comprometido com a formação crítica dos sujeitos e seus desdobramentos na sociedade. Além disso, ações de Fact-checking ocuparam um papel importante no combate às Fake news no que diz respeito ao campo político e mídias alternativas (Pinto; Carvalho, 2023). Entretanto, a despeito dos erros da imprensa brasileira, seu material não é checado por essas agências. Cabe ressaltar duas características importantes das empresas de Fact-checking, as informações são rigorosamente avaliadas independente do lado político que trata a informação, bem como, atuam em prol da conscientização do público. Como limitação, destaca-se que ainda são poucas as referências acerca dessa temática, desinformação e mídias sociais, aplicada à área da saúde, o que pode comprometer a abrangência e diversidade das perspectivas abordadas. Contudo, a pesquisa contribui significativamente para a reflexão sobre os impactos da desinformação na saúde pública, oferecendo subsídios importantes para profissionais de saúde e usuários do SUS no enfrentamento desse desafio. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: o trabalho contribui com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) na linha 16: “Paz, Justiça e Instituições eficazes”; no objetivo específico “16.10: Assegurar o acesso público à informação e proteger as liberdades fundamentais, em conformidade com a legislação nacional e os acordos internacionais”. Considerações finais: cabe ressaltar o quanto as Fake news são impactantes à saúde e a sociedade, pois promovem a desinformação, manipulação de opinião pública e descredibilidade de órgãos públicos e indivíduos. Esse fenômeno é um grande desafio na era digital, marcada pela globalização e a velocidade com que as informações circulam. Essas manifestações têm reflexos na saúde pública, especialmente ao afetar o direito à saúde e à informação confiável pela população. Destaca-se que existem vários meios de disseminar a desinformação, sendo as redes sociais os mais utilizados, contudo, é importante salientar que já se observa movimentos de enfrentamento da desinformação. Embora muitos movimentos estejam vinculados a interesses de cunho político, quando somados às organizações de saúde, educação e sociedade civil, formam uma grande rede de promoção de prática de saúde digital, trabalhando em prol de um ambiente digital seguro, baseado em evidências e a educação crítica. Espera-se que os resultados desta revisão sirvam como subsídios para instigar pesquisadores e profissionais da saúde no debate e desenvolvimento de estratégias para conter a desinformação e as Fake news.
