TRANSPLANTE DE MICROBIOTA FECAL VERSUS TERAPIA PADRÃO COM ANTIBIÓTICOS NA INFECÇÃO RECORRENTE POR Clostridioides difficile
Resumen
Introdução: a infecção por Clostridioides difficile (CDI) é uma das principais causas de diarreia associada ao uso de antibióticos, representando um desafio à saúde pública. Ela ocorre principalmente após o uso de antibióticos que desequilibram a microbiota intestinal, permitindo a proliferação do Clostridioides difficile e a produção de toxinas que danificam a mucosa intestinal. A terapia padrão, baseada em vancomicina, fidaxomicina e metronidazol, apresenta altas taxas de recorrência, podendo atingir 65% após o segundo episódio (Núñez et al., 2022). Como alternativa, o transplante de microbiota fecal (TMF) tem se mostrado eficaz na restauração da diversidade microbiana e na redução da recorrência da infecção. Além disso, a microbiota intestinal influencia não apenas a digestão, mas também o sistema imunológico e o bem-estar mental. O uso excessivo de antibióticos pode comprometer esse equilíbrio, impactando a saúde geral. Objetivo: comparar a eficácia do TMF com a terapia padrão baseada em antibióticos na indução da remissão da infecção recorrente por Clostridioides difficile, considerando seu impacto na restauração da microbiota intestinal e na saúde sistêmica. Metodologia: foi realizada uma revisão integrativa da literatura dos últimos 15 anos, utilizando as bases de dados PubMed e LILACS. Foram empregados os descritores DeCS “Clostridium difficile”, “fecal microbiota transplantation”, “antibiotics”, “standard therapy”, “recurrence” e “remission” em combinações com os operadores booleanos AND e OR, resultando na seguinte estratégia de busca: "Clostridium difficile" AND ("fecal microbiota transplantation") AND ("antibiotics" OR "standard therapy") AND ("recurrence" OR "remission"). Sobre os critérios de exclusão, foram desconsiderados estudos de revisão de literatura, estudos experimentais em modelos animais e pesquisas na população gestante. Além disso, foi aplicado o filtro "texto completo gratuito". A busca inicial no LILACS resultou em 23 artigos, dos quais 8 foram elegíveis e, no PubMed foram encontrados 89 trabalhos, em que foram selecionados para o estudo 46 artigos. Excluíram-se artigos duplicados e aqueles sem relação direta com o TMF, resultando em 15 estudos elegíveis. As informações extraídas foram sintetizadas e analisadas comparativamente. Resultados e discussão: os estudos analisados indicam que o TMF apresenta taxas de sucesso significativamente superiores às da terapia padrão na remissão da CDI recorrente. Uma metanálise de seis ensaios clínicos randomizados (320 participantes) revelou que o TMF aumentou significativamente a taxa de resolução da CDI em comparação com antibióticos (Minkoff et al., 2023). Além disso, um estudo retrospectivo envolvendo 64 pacientes mostrou que a eficácia do TMF para CDI recorrente foi de 75% após o primeiro procedimento e aumentou para 90% com uma segunda aplicação (Ashraf et al., 2021). Outra revisão sistemática com metanálise, em rede de ensaios clínicos randomizados, de Rokkas et al. (2019) comparou diferentes intervenções terapêuticas e concluiu que o TMF apresentou maior eficácia do que vancomicina e fidaxomicina no tratamento da CDI recorrente. Um dos fatores que explicam a maior eficácia do TMF está relacionado à capacidade do transplante de restaurar a diversidade da microbiota intestinal de forma mais duradoura do que o uso contínuo de antibióticos. Observa-se que o TMF promoveu aumento significativo de bactérias benéficas como Bacteroides e Firmicutes, que auxiliam na resistência contra novas infecções e melhoram a absorção de nutrientes essenciais. Além disso, evidências sugerem que a recorrência da CDI pode estar diretamente ligada à destruição da microbiota benéfica pelos antibióticos, tornando o TMF uma abordagem promissora para interromper esse ciclo. A análise econômica do TMF no Sistema Único de Saúde (SUS), considerando um horizonte de cinco anos (2024-2028), demonstrou sua viabilidade financeira em relação à terapia padrão. Com uma taxa de difusão progressiva, iniciando em 5% em 2024 e aumentando para 10%, 20%, 40% e 80% até 2028, o estudo apontou uma economia acumulada de R$ 27.084,72 no período, reforçando os benefícios econômicos da incorporação do procedimento (Flausino et al., 2024). O Projeto do Microbioma Humano, iniciado em 2007 e concluído em 2016, contribuiu significativamente para a compreensão dos benefícios e da viabilidade do TMF. Seu legado permitiu avanços na aplicação terapêutica da microbiota intestinal, evidenciando seu impacto na restauração do equilíbrio microbiano e na melhora de diversas condições de saúde. Embora a maioria dos estudos apontem o TMF como mais eficaz que a terapia padrão, algumas divergências são observadas. Enquanto metanálises confirmam taxas de remissão superiores e menor recorrência, parte da literatura destaca limitações como a falta de padronização dos protocolos, variabilidade na via de administração (colonoscopia, cápsulas orais, enemas), além de diferenças nos critérios de seleção de doadores. Entre os prós, estão a restauração mais duradoura da microbiota e a redução da dependência de antibióticos; entre os contras, estão os riscos de transmissão de patógenos, efeitos adversos gastrointestinais (náusea, cólica, diarreia transitória) e a necessidade de centros especializados para execução segura do procedimento. Assim, apesar da eficácia promissora, a segurança e a padronização permanecem desafios centrais para sua incorporação ampla no SUS. Contribuições do trabalho em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: o presente estudo contribui principalmente com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 3: Saúde e bem-estar, ao assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades, em consonância com a meta 3.8, que prevê a cobertura universal de saúde e o acesso a serviços essenciais de qualidade e a medicamentos eficazes e acessíveis. Ao comparar o TMF com a terapia padrão baseada em antibióticos no tratamento da infecção recorrente por Clostridioides difficile, o trabalho oferece subsídios científicos para a incorporação de uma tecnologia promissora, eficaz e economicamente viável no SUS, evidenciando maior taxa de remissão, menor recorrência da infecção e benefícios adicionais à saúde intestinal e sistêmica. Além disso, relaciona-se ao ODS 9: Indústria, inovação e infraestrutura, ao destacar o TMF como uma tecnologia inovadora com potencial para modernizar protocolos terapêuticos; ao ODS 10: Redução das desigualdades, ao ressaltar a importância de garantir o acesso equitativo a novas terapias no SUS, permitindo que inovações alcancem populações vulneráveis; e ao ODS 12: Consumo e produção responsáveis, por contribuir para a redução do uso excessivo e recorrente de antibióticos, diminuindo impactos ambientais e riscos de resistência bacteriana. Dessa forma, o estudo colabora para o fortalecimento de políticas públicas baseadas em evidências, para a ampliação do acesso a terapias inovadoras e para a qualificação da atenção à saúde, em consonância com os princípios da universalidade, integralidade e equidade do SUS. Considerações finais: com base nos estudos analisados, conclui-se que o TMF representa uma alternativa terapêutica mais eficaz do que a terapia padrão com antibióticos, no tratamento da infecção recorrente por Clostridioides difficile. Além de apresentar taxas de remissão superiores e menor recorrência, o TMF contribui para a restauração da diversidade da microbiota intestinal, o fortalecimento do sistema imunológico e a melhora da saúde sistêmica. A análise de viabilidade econômica reforça o potencial do TMF como uma estratégia custo-efetiva para o Sistema Único de Saúde (SUS), promovendo a racionalização do uso de recursos públicos e a sustentabilidade do sistema de saúde. Dessa forma, o trabalho evidencia a relevância da incorporação de tecnologias inovadoras e baseadas em evidências na atenção à saúde, em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, especialmente no que se refere ao acesso universal e qualificado aos cuidados de saúde. Apesar dos avanços, observa-se a necessidade de mais ensaios clínicos randomizados multicêntricos que avaliem a longo prazo a eficácia e segurança do TMF, bem como estudos que investiguem o impacto do procedimento em diferentes perfis populacionais (idosos, imunossuprimidos, pacientes com comorbidades). Além disso, pesquisas voltadas à padronização dos protocolos de coleta, preparo e administração poderão contribuir para maior segurança e eficácia, favorecendo sua incorporação definitiva como prática terapêutica no SUS.
